Do baile da Vilarinho ao cavaco do Delano: uma história do funk mineiro

Matérias 2017/08/16

“Para falar a verdade, não houve primeiro contato meu com o funk. Houve primeiro contato do funk comigo”, diz o DJ Joseph. Mineiro de 52 anos, ele é um dos nomes envolvidos nos primórdios da cultura funk em Belo Horizonte. “Quando a gente começou a cantar, a fazer rap no Brasil, ainda não existia esse funk nacional. O que havia era alguns grupos no Brasil inteiro fazendo hip-hop. O rap tinha chegado, tinha bombado e a gente tava fazendo aqui no Brasil o que eles estavam fazendo lá no Bronx, nos Estados Unidos”.

No final da década de 1980, o Brasil estava assimilando as novidades do hip-hop e de vertentes da música eletrônica dançante, como o miami bass, o electro e o latin freestyle (também chamado de melody). Partindo das diversas influências internacionais, MCs e DJs buscavam uma identidade própria para seu som. De acordo com Joseph, foi a partir do carioca DJ Marlboro e sua série de discos Funk Brasil (1989) que o funk passou a ter uma cara nacional, com letras em português que falavam diretamente com o povo e influenciaram a todos.

Os bailes já aconteciam há algum tempo em BH desde o fim dos anos 1980, normalmente em quadras esportivas que nos fins de semana viraram o espaço de festa. Um dos maiores é o baile da Vilarinho, que existe desde 1982 no bairro de Venda Nova, Zona Norte da capital mineira, e continua na ativa. Os artistas locais já se apresentavam nessa festa, mas foi só nos anos 1990 que os funkeiros de BH apareceram para o Brasil.

O grupo Protocolo do Subúrbio representou a cena de BH com a música “Tonheta” no LP Funk Brasil Volume 2 (1990), do DJ Marlboro. No Funk Brasil 3 (1991) foi a vez do União Rap Funk com duas faixas: Melô da Paula e Dulcenira. Diante do crescimento do funk na capital mineira, a loja de LPs Black and White – localizada na Praça 7, centro da cidade – percebeu que estava na hora de lançar um disco de rap/funk totalmente produzido em Belo Horizonte. E assim surgiu Fábrica Ritmos em 1992, um marco do funk mineiro.

O LP foi produzido por três mãos: DJ Joseph, DJ A Coisa e Marcelo (integrante do União Rap Funk) com uma bateria eletrônica R8 e sintetizador W30, ambos da marca Roland. O álbum “Fábrica Ritmos” foi o primeiro disco a apresentar os MCs belo-horizontinos em um momento em que rap e funk eram tão próximos que se confundiam. “Não era um disco especificamente de funk, mas refletia essa época. Tinha miami, tinha house, tinha hip-hop. Tinha de tudo no disco. A gente achava que fazer um disco mais abrangente seria mais legal, uma música que agradasse a gregos e a troianos”, explica DJ Joseph, um dos produtores. “Foi um disco que marcou época, com certeza. Mas esse lance de fazer vários estilos no mesmo disco foi um equívoco nosso”. Um clássico daquele LP era a maliciosa “Pistola do Sargento”, do Evandro MC.

Desde então o funk só cresceu. Joseph lembra que o ano de 1992 foi o ápice: “Tinha baile para tudo que é lado, que nem no Rio de Janeiro. Devia ter cerca de 700 festas por fim de semana só em Belo Horizonte”. Em 1997, a Black and White lançou um outro álbum emblemático: “DJ Normandes Apresenta Hip-Hop Hits”, de outro pioneiro do movimento, responsável pelas primeiras festas de renome e pelos primeiros programas de funk, primeiro em rádios piratas e depois na FM Extra. Infelizmente, Normandes faleceu em 2009, mas deixou vários CDs gravados e uma legião de admiradores, que fazem festas em sua homenagem. Todos os funkeiros da antiga ainda o chamam de mestre. É possível baixar em MP3 as músicas que ele tocava na rádio aqui e aqui e conhecer o legado mineiro.

A INFLUÊNCIA DO RAP

O funk e o rap desenvolveram sonoridades bem distintas, mas em Belo Horizonte, conhecida como a terra do “funk consciente”, sempre foram muito próximos. Os Racionais MCs costumavam fazer show em BH e são citados como referência por diversos artistas locais, como o MC Jefinho, um dos nomes mais populares dos período entre o fim dos 1990 e primeira metade dos 2000, tanto em carreira solo quanto em dupla com o MC Léo (de 2000 a 2004).

Jefinho conheceu o funk na época dos melôs, mas sempre teve o hip-hop como influência. Estourou músicas na linha do consciente (“Moleque Correria” e “Lembranças“) e outras românticas (“Rebelde” e “Perfil“). “De BH eu ouvia SOS Periferia e de fora era muito Câmbio Negro, Racionais MCs, Xis, Doctor MCs, Visão de Rua, Rappin’ Hood e o grande Sabotage. Eu queria cantar. Qualquer coisa. Sou muito melódico, me achei nas melodias das músicas. Componho de tudo: pagode, sertanejo, gospel, rap. Mas me achei no funk”, diz ele, que também escreveu músicas que estouraram na voz de MC Caçula (“Segunda Chance“, “Amor de Mãe“), Menor do Chapa (“Papo de Milhão“), Yuri BH (“O Crime Não Presta“) e Nego Blue (“Solução Não é Problema” e “Chama os Mlk“).

Jefinho acredita que o funk do litoral paulista se encaixou bem em Minas e que isso exerceu uma influência no movimento mineiro, ainda que não tão determinante. A temática social e as letras com pegada rap dos funkeiros da Baixada Santista caíram no gosto de Belo Horizonte. As duplas Careca e Pixote, Bola e Betinho, Totto e Kbça e Danilo e Fabinho contavam com um público fiel na terra do pão de queijo. “Baixada era hino lá, nóis era rei lá [sic]. O consciente lá era f*da e ainda é. O público era um só, BH e Baixada”, diz o MC Danilo Boladão, que retomou há dois meses a parceria com Fabinho e já tem show marcado em BH.

“Quando a gente ia pra lá era mais rap tocando nos carro. Os bailes eram mais nos lugares periféricos. O funk era dentro de uma casa alugada, era numa quadra pequenininha, num barzinho. As casas grandona era só pagode e axé”, comenta Danilo, que tocou lá pela primeira vez em 2004. Porém, em 2006 ele encontrou uma situação bem diferente: “O bagulho foi evoluindo. Depois eu voltei lá e começou a expandir. Nos carros rolava funk, as casas de show já começaram a fazer funk também, fomos cantar mais no centro. Os caras ralaram e têm história”, diz, citando o trabalho dos DJs Treb Pesadão e Lebão (por muitos anos o DJ residente da Vilarinho).

Além de Jefinho e Léo, os MCs Tom e Jr., Moscão, Caçula eram os nomes fortes da cidade nos anos 2000. O MC Papo começou a curtir funk em 1996 e diz que a música Cobra Coral, de Tom Jr., foi um fenômeno local. “Foi o primeiro som de BH que todas as quebradas, todo mundo cantava. Ultrapassou o bairrismo. Inclusive eu tatuei ‘31 Cobra Coral’ no meu peito”, diz Papo.

O funk de Belo Horizonte delineou uma personalidade própria em termos de letras, mas por muito tempo o seu som era basicamente uma reprodução daquele consolidado em território paulista e carioca. MC Papo foi o primeiro cara a sacudir as estruturas e propor novidades. “Futuro Ex-Pobre” (2006), seu primeiro disco, era típico do funk mineiro, com músicas como “Eu Pixava Sim (Lembranças de Moleque)“. Já no álbum “El Magrelo Volume 1” (2009) ele rompeu com tudo e aproximou-se do reggaeton, um ritmo latino que é mais lento, suave e suingado do que o tamborzão.

Maior hit de Papo, “Piriguete” foi produzida pelo decano Joseph, que até então não conhecia nada de reggaeton. Papo ri ao lembrar a reação do parceiro quando lhe explicou o tipo de som que queria fazer: “Ele disse que eu era doido, que não ia funcionar, que a galera aqui gostava de funk ou de funk. Aí quando explodiu ele me disse: ‘Que bom que você não segue meus conselhos”.

Apesar do sucesso em todo país, Papo diz que a recepção da música em sua cidade natal “foi nula” e que a música fez sucesso no Norte e Nordeste, mas não em Minas. “Nenhum dos meus amigos DJs quis tocar porque não era 130 BPM. Todos me chamaram de louco”, explica. “E aí seis meses depois eu tava fazendos shows no interior do Pará e do Tocantins. Daí o bagulho foi se espalhando por todo o país”.

Para ele, o funk em BH ainda é muito conservador e rejeita mudanças. “A galera é bem tradicional. Eu sou uma exceção. Eu fazia o negócio misturado com reggaeton porque eu sou doido mesmo. Escutava uns negócios de fora e achava aquilo da hora. BH é muito tradicional, por isso a gente demorou para sair do freestyle, do consciente”, analisa.

Jefinho vai além e diz que os mineiros não reconhecem as suas próprias inovações. “BH aceita tudo que não é de BH, e o Papo por ser um cara muito antenado trouxe essa visão há muito tempo mesmo. A galera de BH só absorve se vier de fora. Vão para onde o vento sopra”, crítica.

Quase dez anos depois das misturas de Piriguete, Anitta, Simone & Simaria, Ludmilla emplacaram em todas as rádios do Brasil com músicas no ritmo de reggaeton. O DJ Marlboro está prestes a soltar o disco Raggafunk Brasil e até Michel Teló entrou na onda latina. E o funk com levadas de cavaquinho do jovem MC Delano também virou mania em todo o brasil. Papo conclui: “O funk mineiro custa a mudar, mas quando ele muda é para criar tendência, porque o bagulho é bão mesmo”.

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