Caminho sem volta

Esporte 05/07/2018

Mais um jogo do Brasil, mais uma crônica do Leandro Marçal ao Portal KondZilla:

Conheci a Taís no barzinho. Era um fim de semana entre amigos. Tomamos umas e outras, conversamos sobre estes e aqueles assuntos. Trocamos contatos, nos demos bons dias e boas noites no WhatsApp, falamos de coisas bestas dos dias e das noites.

Saímos outra vez. E outra vez. E outra. E mais outra. Até percebermos que nos víamos com frequência além da normal. Sem os amigos do barzinho. Às vezes, nas casas de alguns deles. Sem rótulos, pressões ou alteração de status de relacionamentos nas redes sociais. Fluiria melhor, pensamos.

Mas, de um tempo para cá, a coisa mudou um pouco. Aumentaram as perguntas dos motivos para não assistirmos aos jogos da Copa do Mundo juntos. Ela nem é muito chegada em futebol como eu. Resolvemos cada um ficar no seu canto e só enviar uma e outra mensagem no decorrer das partidas, depois dos fogos, a cada gole e a cada gol.

Amanhã às 15h, no jogo das quartas de final contra a Bélgica, vai ser diferente. Vou acompanhar essa batalha na casa dela, que me pediu para não me exaltar muito nos lances agudos. Vai ser difícil, eu sei. É que os pais dela não são chegados a gritarias futebolísticas, preciso respeitar o ambiente de tranquilidade.

Parece um teste definitivo, mesmo sabendo que mais deles virão. Ou seguimos daqui para frente, a outro patamar, ou voltamos cada um para seu canto e continuamos a vida de onde ela parou, antes do barzinho no distante fim de semana.

Fico pensando naqueles caras vestindo a camisa amarela, antes de entrar em campo. Só de lembrar que falar uma besteira pode pegar muito mal com a família dela, já ensaio discursos e respostas prontas. Mas, não posso parecer um robô, tenho que agir naturalmente.

Imagina, então, ter os erros e acertos no enorme campo, aos olhos de bilhões de pessoas do mundo todo…

Acho que tenho mais chances de me redimir se fizer besteira. Posso me retificar, não foi bem isso que eu quis dizer, deixa explicar melhor, não precisam ficar assustados, o jogo já vai começar. No campo, deve ser mais complicado: uma furada, um desvio, um cochilo e tudo se desmancha no ar. Não quero o hexa adiado, nem ser julgado como genro mala ao ir embora.

Se lá na Rússia a seleção brasileira pega a tal da incrível geração belga, por aqui eu desafio os que criticam minha geração, a das selfies e redes sociais. Porque sempre falam que a juventude está perdida. E é nessas horas que a camisa pesa, a gente vê quem é craque de verdade, mata no peito e segue em frente.

É um caminho de mão única: depois de certo tempo, não dá mais para evitar algum nome para as saídas com a Taís. Precisamos avançar, ou ficamos pelo meio do caminho sem nunca mais nos ver. E se não atropelarmos a Bélgica, a vida vai continuar com “apenas” cinco estrelas no peito. Nos dois casos, só a ida é possível, uma volta atrás seria frustrante.

Pensando bem, melhor nem ensaiar muito, não. É só chegar mostrando a categoria de sempre, mostrar que a história fala por si só e ver no que vai dar.

Chegar até aqui foi difícil, eu sei. Mas temer não vale nada.

Falta pouquinho para comemorar. No fundo, a Bélgica não vai nos amedrontar. Nem a família da Taís.

 

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