Conexão Brasil-Angola retrata Luanda, o berço do Kuduro

Matérias 3 semanas atrás

*Todas as fotos por: Suryan Cury, cortesia I Hate Flash

As periferias do mundo inteiro começaram a ter mais visibilidade na virada do século, e a internet é a principal causa desse efeito em massa. Sem que haja barreiras físicas para impedir o contato e a distribuição de música, fotos e vídeos, as infinitas culturas periféricas puderam se expor sem passar pela aprovação de ninguém. Produtores musicais começaram a criar um intercâmbio cultural nunca antes imaginado, era possível ouvir o funk carioca, em qualquer região do mundo, como também chamar um gringo para uma collab. Nesse sentido, outros ritmos como: Cumbia, Reggaeton, Tecnobrega, Bregadeira e o Kuduro se tornaram ritmos conhecidos. Mas até que ponto uma música no Soundcloud consegue representar uma cultural local? Foi com essa dúvida que os produtores e videomaker Alexandre Marcondes e Suryan Cury, se jogaram para Luanda, capital da Angola para descobrir mais desse ritmo africano. E você confere agora no Portal KondZilla o resultado desse trabalho:

A dupla de produtores, Alexandre e Suryan, entre diversas conversas ficaram com aquela curiosidade sobre: Como era Angola? As periferias do mundo são iguais? Acontece festas e encontros entre MCs e produtores? Como acontecem as coisas do outro lado do Oceano? Será que estamos de certa forma nos apropriando da cultura alheia? Se aproximar da comunidade parecia a forma de obter todas essas respostas.

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Mesmo com o advento da internet, nem tudo é possível de compreender através da telinha, e entre mensagens de Whats App e emails, a dupla se jogou pro continente berço da humanidade. Ao chegar lá, perceberam que a internet camufla uma realidade…digamos, não tão brilhante como as músicas que estão nas redes de streaming. Alguns problemas locais, como falta de infraestrutura e saneamento, como também pouco acesso a internet, retratam fielmente Luanda, a região berço do ritmo Kuduro.

A cultura musical ainda é a válvula de escape para juventude local, onde músicos expõem seus pensamentos como também espalham a cultura pelo globo. Afinal, o Kuduro é um ritmo conhecido mundialmente, inclusive no Brasil, há mais tempo do que se imagina – sabe o vídeo do Pretinho da Hora – Se Controla? É um kuduro “abrasileirado”.

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Mas esse choque cultural rendeu muitas histórias, inclusive o documentário “Kuduro, esse Beat nos Kuia” e a produção da música “Tá Fixe“, em conjunto com produtores locais. E assim como no funk paulistano, a principal forma de distribuição musical é por conta de videoclipes, sendo assim, a dupla de diretores juntou umas imagens e produziu o videoclipe.

Aproveitei toda essa conversa sobre a Angola e chamei o Alexandre Marcondes para um papo, confira a seguir:

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Portal KondZilla: Como surgiu a ideia de viajar para Angola e conhecer mais do Kuduro?
Alexandre Marcondes: Então, eu e o Suryan já vínhamos tocando em várias festas cariocas com o nome de PUTOS. Basicamente a gente tocava kuduro, afrohouse e dancehall. A gente estava há um tempo fazendo isso, porém sentindo a necessidade de vivenciar isso e trocar experiências com a galera que estava produzindo essa cultura. Queríamos mergulhar mais a fundo e entender as nuances dessa cultura, como também devolver alguma coisa pra eles. Dessa forma surgiu a ideia de fazermos um documentário para que essas pessoas angolanas pudessem falar com os brasileiros, e também com o mundo, claro, sobre a sua música.

KDZ: Mas por que o Kuduro e a Angola?
AM: Eles são referência pra gente, então a gente estava muito empolgado em conhecê-los e entender seus processos, suas influências, sua história. Então tudo que a gente fez em Angola foi bem pessoal. Na verdade, se a gente não tivesse uma câmera, teríamos corrido atrás de conhecê-los da mesma forma e buscaríamos as mesmas trocas.

Também fomos com muita vontade de colaborar com produtores musicais de lá, pra tocar por lá e etc. Então já, eu saí daqui com um pendrive, alguns beats, alguns projetos, pra deixar mesmo por lá e incentivar essa ponte Brasil+Angola.

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KDZ: Qual a relação que você vê entre o funk e o kuduro?
AM: Cara, tem Muito em comum. A história de discriminação e depois cooptação pelo mainstream é muito parecida. O mesmo tratamento como música de marginal vagabundo, a resistência da sociedade em aceitar esse ritmo como um traço da identidade cultural do país, aceitar como uma cultura legítima angolana. Mesmo sendo um movimento que conquistou o povo de uma forma muito forte, as pessoas negam essa força. Mas nas favelas as festas de kuduro já explodiram e os artistas são extremamente populares.
Enquanto isso, no exterior o movimento logo ganhou esse carimbo de cultura angolana.

KDZ: Como os jovens Angolanos vêm a música Kuduro? Assim como no Brasil, a música também é uma alternativa para um futuro melhor em Angola?
AM: Sim, assim como o funk, o kuduro é um sonho pra molecada de lá como uma forma de sair da pobreza. Todos me disseram que muita gente foi salva por conta do kuduro. E o próprio Tony Amado (criador do kuduro) disse que hoje os ricos também ganham dinheiro com essa cultura, apesar de não existir uma indústria fonográfica formal por lá.

Outra semelhança é a forma como a galera produz. No quarto, com equipamentos baratos, dando seu jeito e fomentando o movimento. Nas boates, só tocam os hits mais pops, que eles tendem a chamar de Afro-house, mas há controvérsias sobre o termo.

KDZ: Como surgiu a ideia da música “Tá fixe”?
AM: Essa é uma história muito legal, porque foi muito por acaso. Aliás, a gente saiu do Brasil somente com o contato do DJ Ketchup, não sabíamos que iríamos encontrar tanta gente incrível.

A juventude angolana é muito conectada com música. No hotelzinho simples que a gente estava hospedado, um pouquinho afastado do centro, fizemos logo amizade com a galera angolana assim que descobriram que estávamos lá por conta da música. Tinha esse cara do hotel que nos apresentou alguns DJs das redondezas, o bairro do Talatona.

Todos nos receberam muito bem, conversamos muito sobre música e cultura, trocamos muuuuitas músicas e nisso rolou um papo de tocar numa festa deles. Neste DJ set, o Elpitxú faria uma performance de percussão, algo relativamente comum lá. Quando fomos pra casa dele dar uma ensaiada, começaram uns papos de produção. Ele abriu o FL e os amigos dele começaram a cantar na música. A coisa simplesmente fluiu.

KDZ: E o que significa a gíria “Tá Fixe”?
AM: Esse lance de “Tá fixe” foi uma coisa marcante pra gente, porque é um gíria muito carismática, e mesmo sem a gente nunca ter ouvido antes, entendemos de cara a good vibe. Quando pensamos no refrão, vimos que era isso que ia unir o Rio e Luanda.

Quando vimos que a coisa tava tomando uma forma mais legal ainda do que esperávamos, nos empolgamos e decidimos que TINHA que rolar um clipe pra mostrar a vibe daquela galera! Daí escolhemos as locações e no último dia de viagem filmamos tudo. Foi muito emocionante por que por onde a gente passava tava todo mundo cantando junto, tinha a molecadinha cantando. Foi demais.

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KDZ: Qual foi a bagagem cultural que vocês trouxeram dessa viagem?
AM: Não consigo nem te descrever o tamanho da bagagem que trouxemos. Eu fiquei uns três meses com a cabeça fervilhando tentando entender tudo que aconteceu por lá. Tentando digerir. Certamente minha vida mudou depois que essas pessoas abriram suas portas para nós. Uma mudança de visão da vida e visão musical. É até difícil dizer o tamanho da minha gratidão a eles.

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Gostou do papo? Leia mais dessa jornada por aqui : Kuduro, esse beat nos kuia e Tá Fixe, o baile tá fixe .

#Ficha Técnica
Música produzida: por Johnny Ice (Alexandre Marcondes) e Elpitxú.
Vozes de: Savio Show, Socílo Xeriff e Suryan Cury

#VideoClipe
Produzido e Dirigido por: Alexandre Marcondes e Suryan Cury
Edição: Alexandre Marcondes e Clarissa Ribeiro
Finalização: Alexandre Marcondes
Participação de: Os Makambos , Os Botsuwana, e Os Mvuama
Co-produção: I Hate Flash

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