Demos um rolê no Helipa com o MC 2K

Matérias 2017/05/22

*Todas as fotos por: Ryck Rodriguez para o Portal KondZilla

Os fluxos de Heliópolis, comunidade localizada na região sudeste de São Paulo, se tornaram conhecidos em todo o mundo por conta de diversas citações em músicas, e um dos responsáveis por esse reconhecimento é Kayque Martins Rodrigues, 23, o MC 2K. O cantor, que já passou pela KL Produtora, foi destaque no Boiler Room e agora se diz muito maduro, bateu um papo com o Portal KondZilla. Aproveitamos para dar um rolê pelo Helipa enquanto o MC explicava mais sobre as curiosidades da comunidade e do funk.

Atualmente com cerca de 120 mil habitantes, Heliópolis (que em grego significa “cidade do Sol”) começou a ser ocupada por retirantes nordestinos no início dos anos 70 e é considerada a segunda maior favela de São Paulo (ficando atrás de Paraisópolis), além de ser uma das maiores da América Latina. Recentemente, a favela se tornou um bairro, ganhando o nome de Cidade Nova Heliópolis.

Encontramos 2K na sua casa, que fica a uns cinco quarteirões da entrada do Helipa. Durante o rolê, fomos acompanhando aquele mar de casas coloridas de alvenaria como fundo e ruas onde o asfalto nem sempre é presente. Entre becos e vielas, o MC contou um pouco sobre a relação que tem com a comunidade. Aliás, é chato dizer, mas Kayque não nasceu em São Paulo e nunca morou no Helipa. Sim, eu também fiquei frustrado.

“Eu nasci no interior de Minas Gerais e me mudei para São Paulo ainda na adolescência, com uns 16 anos, com o sonho de ser jogador de futebol. Meu pai já morava em SP e trabalhava com vários projetos em Heliópolis, incluindo coisas relacionadas ao funk. Foi aí que tive meus primeiros contatos com o Helipa”, explica o cantor.

Porém, 2K só ia ao Helipa acompanhado do pai. Ir sozinho para os fluxos então?! Vesh, nem pensar. Hoje em dia, Kayque não precisa mais ‘fugir’ dessa vigilância paterna e com o trabalho musical, a paixão pelos fluxos só aumentou – principalmente os do Helipa.

“Acho que o fluxo é um termômetro do meu trabalho. Quando vou em algum [fluxo], fico mais tempo observando tudo o que acontece, absorvendo, tendo ideia”, conta 2K. “Hoje em dia, vou para fluxo a trabalho mesmo. [A música] ‘Baile do Helipa’, por exemplo, eu fiz assim, observando o rolê”.

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Fã desde pequeno do funk carioca – pra você ter uma noção, ele sabe cantar de cabo a rabo “Rap do Solitário“, do MC Marcinho -, Kayque pensou primeiro em ser dançarino e se espelhava no grupo “Os Hawaianos“, grupo carioca que estourou nos anos 2000. Mas aos poucos percebeu que o papel do MC era, digamos, mais interessante.

“Acompanhando os eventos que meu pai fazia, ficava deslumbrado com a atenção que o MC recebia no camarim, toda aquela gente cercando o cara. No começo, queria ser dançarino. Porém, alguns amigos meus me incentivaram a cantar e meu primeiro passo foi três meses antes de estourar ‘Ziguirigudum’ (lançada em 2013)”, explica o MC. “Foi tudo muito rápido na minha carreira, e eu agradeço por isso”.

De 2013, com o lançamento de “Ziguiriguidum”, até 2017, com “Falei Nada”, muita coisa aconteceu e serviu de aprendizado. Hoje, 2K se considera um MC experiente e maduro, com uma carreira consolidada. E isso se reflete no Kayque, pois aquele moleque que não era tão responsável há uns anos, hoje é um pai de família e empresário do ramo estético. Mas ele garante que o trabalho de cantor segue como sua prioridade.

Voltando ao Helipa, passamos pela Estrada das Lágrimas, pela Prainha e pela rua onde é realizado o ‘Fluxo do Babaloo’, além de incontáveis becos estreitos. Essa jornada nos levou a casa do Mano DJ, parceiro de 2K nas produções e nos rolês.

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Diferente de 2K, o Mano DJ nasceu e foi criado em Heliópolis. Frequentador de fluxos nas quebradas, Mano é quase um ‘guia’ da comunidade. Uma curiosidade dos bastidores, é que o produtor foi responsável por levar diversos artistas de renome internacional – como o DJ e produtor português Branko – para dar um rolê pelas vielas e fluxos da comunidade.

“O pessoal gosta do ambiente que tem aqui, o mar de gente, a música. Os gringos amam isso. Acho que é porque é algo bem diferente do mundo deles”, conta o produtor, que já está habituado a apresentar a comunidade para os ‘turistas’.

Aliás, se você for para o Helipa e descobrirem que você não é de lá, você será chamado de turista. Mesmo sendo de São Paulo ou alguma quebrada próxima. Não é do Helipa e tá no fluxo, é turista. Simples assim.

Voltando ao rolê, Branko e a galera da gringa devem ter se impressionado ao ver o videoclipe de “Baile de Favela“, do MC João, que ficou conhecido mundialmente e cita o Helipa. Porém, essa não foi a única canção a citar a comunidade. Também temos: “Oh Novinha“, do MC Don Juan, “Foi no Baile do Helipa“, do MC G15, entre muitas outras.

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Um dos motivos para chamar geral de turista é porque, de fato, os diversos fluxos que rolam no Helipa se tornaram pontos turísticos. Caravanas de outros bairros, outras cidades, outros estados desembarcam em Heliópolis a cada fim-de-semana. E um dos motivos para os fluxos serem tão famosos na comunidade é a falta de opção para lazer na quebrada.

Nossa parada final foi no estúdio do Mano DJ, que fica às margens da avenida Almirante Delamare, uma das principais vias de acesso ao Helipa, que faz divisa com o município de São Caetano do Sul e fica a certa de 10KM do centro de São Paulo.

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Com o hitFalei Nada” na pista – o videoclipe conta com mais de 30 milhões de visualizações no YouTube – 2K se diz feliz com o atual momento, dentro e fora do funk. Empresário, casado e com um filho de 9 meses, Kayque se diz com os pés no chão. Atualmente, 2K esta na produtora Start Music.

“Hoje tenho muito mais responsabilidade, não sou mais um moleque que só quer tirar onda e gastar o dinheiro com besteira. Penso bastante em dar um futuro para o meu filho e conseguir tocar meu próprio negócio junto com a minha esposa”.

Seus 23 anos parecem ser poucos para um MC que está há mais cinco anos no corre e faz ponderações maduras sobre o ritmo, como uma crítica a falta de reconhecimento aos compositores: “A galera não reconhece o trabalho deles, e isso não é bom para o funk de um modo geral”, e também, sobre o atual momento do funk paulistano: “Os caras do momento são o MC Lan e o MC Kevinho, atingindo públicos diferentes, claro”.

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Depois de umas três horas de caminhada, fomos embora com uma noção mais clara da dimensão de Heliópolis e da relação de 2K com essa quebrada. Obviamente, não deu para conhecer tudo durante essa caminhada, até porque o Helipa tem uma área de 1 milhão m², o que equivale a 142 campos de futebol. É mole? É nada, é o Helipa!

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