É, galera, o mundo gira

Esporte 28/06/2018

Mais um jogo do Brasil, mais uma crônica do Leandro Marçal ao Portal KondZilla:

Chamou atenção ver o Mateus sozinho, esperando carona, ao fim da vitória do Brasil por 2 a 0 contra a Sérvia. Garantimos nossa vaga nas oitavas de final. E ele garantiu presença em mais um jogo da Copa do Mundo com nosso grupo de amigos.

Não negou um sorriso acolhedor a cada novo assunto. Antes da partida começar, gargalhou ao lembrar sua chegada para os jogos de quatro anos atrás. Encostava o carrão invocado na esquina e batia à porta, bem vestido, ao lado da esposa elegante. Pedia ajuda para carregar as sacolas de bebidas e carnes. Todas de primeira.

Sua vida parecia um comercial de margarina e ele chorou compulsivamente no 7 a 1, com a companheira dando abraços para consolá-lo. Quando a mesma Alemanha chorou por se despedir ainda na primeira fase depois de 1.449 dias, Mateus falou pela primeira vez a frase que tanto repetiria.

– É, galera, o mundo gira.

E comentou do divórcio. Parece que seu casamento não era tão feliz quanto tentava nos mostrar. As brigas constantes e o excesso de ciúmes desarrumaram a elegância da ex-esposa e o comercial de margarina chegou ao fim.

A crise não parou por aí, pelo visto. Quando comentei sobre a reviravolta da classificação em cima da hora dos argentinos, Mateus lembrou o carro amado. Sua chave foi o último objeto a ser entregue quando os sinais negativos se acumulavam nas tantas contas bancárias. Precisou se reinventar e voltou aos metrôs antes que o fundo do poço afundasse mais.

Uns pensavam no divórcio, pensão e pendências jurídicas para a falência. Nada disso. Foi a perda de muito dinheiro com investimentos errados, uns calotes e a demissão. Teve que abrir mão dos luxos.

– Foi desse jeito, tudo muito sutil, nada de uma hora para outra – contou no meu ouvido apontando para a televisão. A gritaria diante do leve toque de primeira de Paulinho aos 35 do primeiro tempo, abrindo o placar em Moscou, ofuscava o balançar de cabeça do Mateus.

Tudo bem, é Copa do Mundo, essa entidade tão rara de aparecer por aqui, mas o assunto da derrocada do meu amigo era tão interessante quanto a bola rolando na Rússia. Queria deixar um olho mirando a TV e o outro o encarando, questionando, com questões sobre seu estado psicológico.

– Olha, a pancada mesmo foi a morte do meu pai. Não soube o que fazer, era como se tivesse uma dor de cabeça sem fim. Aliás, será que a do zagueirão ali não doeu também depois de uma porrada dessa?

A pergunta veio aos 23 do segundo tempo, quando o Thiago Silva acertou a cabeçada com tanta força que a bola sequer morreu no fundo das redes: voltou sozinha, como quem pedia o reinício da partida.

A classificação do Brasil já estava consolidada. O Mateus lembrou que a última vez que a seleção brasileira foi embora na primeira fase foi na distante Copa de 1966, na Inglaterra. Também recordou as tantas vitórias contra o México, próximo adversário, nas oitavas de final. E ressaltou que o mundo da Copa gira depois da fase de grupos, não dá para bobear.

Quem bobeou fui eu, que andando para lá e para cá depois do jogo não notei o passar do tempo, o giro do mundo, o meu amigo esperando uma carona. Percebia a tempo. No caminho, comentou outra vez a ressurreição dos hermanos, o choro contra a Alemanha numa época em que só ria, o riso contra os germânicos em tempos que tanto chora, da empolgação pela fase seguinte.

– Mas precisa ter cuidado, o mundo tá girando rápido demais, viu?

Nem sempre para o mesmo lado.

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