Entenda a evolução do funk de Minas Gerais

Música 2017/08/01

É o beat, o grave, o pandeiro e o cavaquinho”. Foi com essa receita que o MC Delano apresentou o funk de Minas para todo o Brasil. Multi-instrumentista, produtor e cantor, o mineiro de 20 anos nasceu em uma família de músicos e desde cedo mostrou seu talento. Toda sua experiência musical lhe serviu de base para os mega hits de 2015: “Na Ponta Ela Fica” e “Devagarinho”. Mas Minas Gerais não se resume apenas a um artista, temos também MC Jefinho BH, MC Papo, MC Rick, MC Caçula, Yuri BH e para ilustrar o movimento mineiro, o Portal KondZilla te explica como isso aconteceu e quem são os nomes fortes do movimento.

No âmbito nacional, os sucessos do MC Delano ajudaram a colocar Minas Gerais no radar do funk. Mas o impacto renovador para a cena mineira, que por anos teve funk nas periferias e era dominado pela vertente “consciente” e pelas batidas do Miami Bass e Melody, aconteceu agora com Delano e outros artistas. “Havia uma necessidade de fazer algo mais popular, mais atual. Delano veio do samba e teve uma sacada muito foda com o cavaco”, elogia o veterano MC Jefinho BH, da dupla Jefinho & Léo e autor de hits dos artistas: MC Caçula (Segunda Chance, Amor de Mãe) Menor do Chapa (Papo de Milhão), Yuri BH (O Crime Não Presta) e outros .

Atualmente o que pega em MG é a putaria, um dos principais nomes da capital é o MC Rick. “Acho que o som foi virando mais por causa dele [Delano], que começou com essa pegada aí. Ou talvez não foi ele que começou, mas o que mais estourou foi ele. Aí todo mundo veio com essa pegada e foi mais gente estourando e estourando, foi se atualizando”, destaca Rick, cujo maior sucesso da carreira (Sarrou, Gostou, de 2014) foi produzido por Delano.

Outro veterano do funk mineiro, MC Papo, vê o momento como um símbolo da mudança de espaço e de público do funk de Belo Horizonte. “Antes o funk era muito Zona Norte e os bailes eram em clubes e quadras. O funk já era uma cultura por aqui”.

“O que surgiu foram os bailes de favela, que começou agora, recentemente, quando a galera da Zona Sul entrou pro funk. Antes, era uma galera que na época (o pessoal em 1996 e depois o pessoal em 2005) não era do funk, era do pagode, do samba, do forró. Curtiam outros bagulhos. E aí, de uns cinco, seis anos pra cá esse pessoal começou a entrar pro funk”, diz, explicando que a Zona Sul é a região nobre da cidade (com bairros como Savassi, Belvedere e Lourdes), mas, paradoxalmente, também é onde estão as maiores favelas, que são bem próximas.

“Foi aí que começaram a surgir os bailes de favela, porque as favelas da Zona Sul são de maior porte e têm muitas pessoas frequentando que não são da favela deles. Na Zona Norte, a galera é muito bairrista. Quem é do Índio [na região da Pampulha], só vai no Índio, não fica indo na favela dos outros. E na Zona Sul tem muita gente de outras favelas que vai pra lá. Essa galera começou a fazer um movimento lá dentro das favelas, e como as favelas são muito grandes o movimento pode rolar solto. O acesso é mais fácil, mais próximo do centro, tem muito ônibus”, detalha Papo.

Inicialmente os bailes de favela ganharam força no Aglomerado da Serra, um enorme complexo composto por seis vilas e cerca de 80 mil habitantes na Zona Sul de BH, sendo um dos maiores conjuntos de favelas da América Latina. Mas hoje as festas se espalharam e há bailes de grande porte também na Zona Noroeste (como o do Subaco das Cobras, no bairro da Califórnia) e até na Norte (o famoso baile da Inestan, no bairro de Cachoeirinha), onde estão os tradicionais bailes de quadra.

E foi desses bailes nas quebradas que emergiu uma sonoridade totalmente nova: no lugar da batida grave do tamborzão, os DJs e produtores investem em arranjos mais espaciais e minimalistas, com maior destaque para o tons agudos, com um ritmo lento e cheio de reverb.

Não se sabe ao certo quem começou com esse som, mas o estilo é farto de hits locais, como “Viciei Nessa Garota” (do MC Dennin com produção dos DJs João da Inestan, TG da Inestan e Lukinhas da Inestan), “Raimunda” (de MC Rick com Everton Martins e DJ Cheab), “Onde as Piranhas Nascem” (de L da Vinte com DJ Swat e Gui Marques), “Da Maconha Eu Não Largo” (MCs Kaio, Zilu e GD com Swat e Marcus Vinícius), Nós é Bandido Vida Loka (MCs L da Vinte e AK com DJ João da Inestan e DJ TG) e “BH É Nóis” (Rick e Didi com DJ PH da Serra).

De todas estas faixas, “Viciei Nessa Garota” é uma das mais visualizadas, no Youtube e SoundCloud, e também teve divulgação pelo Detona Funk. A música é uma boa introdução ao novo som de Minas: uma flauta que desenha um melodia morna, um ponto minimalista e bem agudo. A batida tem um estranho som de vidro quebrando. No início há um sample que remete aos proibidões, mas no lugar de referências às facções de Rio e São Paulo, ele demarca a sua origem: “BH é nóis, sô. É Praça Sete, mané (…) Nóis nunca para, não, sô, nóis só dá um tempin”.

Ele é Bandido”, do MC Wellerzin com DJ Swat, e “Eu Quero é o Toba” (que tem os samples da música “La Españolita“do produtor de prog-trance Mandragora), do MC Rick com o DJ Cheab, são outras boas sínteses do novo som de Minas. A primeira é uma faixa melodiosa que lembra MC Livinho e faixas do atual R&B americano, mas o seu ritmo é muito esparso. A outra é uma putaria com uma série de beats difusos e um som atmosférico, bem ambientado.

Ninguém sabe dizer quem foi o pioneiro desse som, que ainda nem tem um nome definido – uns chamam de “garrafinha”, outros de “minimalista”, alguns falam apenas em “beat lento”. “Começou nas quebradas, só a favela tava tocando. Agora, graças a Deus, o público da classe alta aceitou esse ritmo aí e estamos fazendo baile até pra classe alta também. A boate abraçou”, explica entusiasmado Rick. “Outras cidades também abraçaram e estão procurando a gente aqui de BH”.

Mesmo sem um criador e sem um nome definido, o estilo minimalista se espalhou e sua influência pode ser sentida em sons dos paulistas MC Lan, MC WM e MC Pesadelo.

Contudo, o funk das favelas de Belo Horizonte sofre com a repressão da polícia. Organizadores e frequentadores dos eventos relatam invasões e fechamentos dos bailes pela polícia. “Há uns três anos temos esse formato de fluxo, parecido com o de São Paulo. Cola um carro de som e cola multidão. Os bailes bons costumam ter seis mil pessoas”, explica Kdu dos Anjos, MC e gestor do centro cultural Lá da Favelinha, uma das sete vilas que compõem o Aglomerado da Serra.

Os funkeiros de MG são resistentes e prosseguem o movimento como podem. “Vários bailes são fechados. Só que a cultura não morre, porque a juventude quer bailar”, celebra Kdu. O DJ Swat completa: “Estão fechando praticamente todos os bailes. Eles chegam jogando bomba, dando tiro de borracha em geral. Mas como diz a nossa frase: ‘nóis nunca para, só dá um tempinho’”. E para fazer o baile estremecer, MC Rick acaba de lançar a promissora “Claudete”: “Como as produções das minhas músicas mais estouradas foram do DJ Vinicin do Concórdia, Everton Martins e DJ Cheab, aí eu chamei os três pra produzir essa. É pra estourar mesmo!”.

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