“Eu sou o criador do 150BPM”, produtor Polyvox fala sobre o ‘ritmo louco’

Música 2017/09/20

Foto: Youssef Jabbour // Portal KondZilla

O polêmico tema dos 150 BPM do funk carioca parece estar longe de chegar a um consenso. Mas tivemos a oportunidade de falar com o criador, e peça fundamental dessa história: o produtor Polyvox. Nossa entrevista se deu na 150 BPM Records, QG, estúdio e escritório da equipe que leva a sério o trabalho que faz. Caso você não saiba da treta, alguns produtores resolveram acelerar a velocidade do funk carioca – que era em 130 Batidas Por Minuto, para 150 BPM. -, e isso incomodou muita gente. Agora é colocar alguns pingos nos i’s, e Polyvox ajudou a entender o problema todo. Confira como foi a conversa do produtor com o Portal KondZilla:

Eu sou o criador do 150“, dispara Polyvox no começo da entrevista. “Eu tinha um estúdio dentro do meu AP e estava gravando, e meu filho batendo com a merda de uma garrafa de Coca-Cola do outro lado da sala. Vi que ele tava batendo muito rápido, daí botei o metrômetro no 150 e fui rebatendo a garrafa no mic a 150 BPM, fui acertando, dando vida a ela [batida]. Foi onde surgiu o 150 cantado e produzido, e não alterando o beat. Foi tudo criado mesmo, o MC canta no 150 e a produção é feita em 150″, conta o produtor, enquanto mostra o projeto da batida Coca-Cola na tela do computador.

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Se você está acompanhando por cima o movimento, acabamos de decifrar uma charada. Uma geração nova de produtores no Rio decidiu produzir uma nova batida para o funk carioca, puxados pelo produtor Polyvox. Já uma outra galera está apenas acelerando as músicas já conhecidas do funk de 130 BPM para os 150, e essa é a situação que gerou um ruído na conversa com diversos produtores das antigas. E quem tá pagando a conta é o Polyvox.

“Eu acho ridículo os DJs que tocam com voz de esquilo. É ridículo, isso eu não apoio. Agora o 150 criado com uma equalização, uma parada legal, é show de bola”. E se você acha que 150 é muito rápido e estraga o ritmo, o produtor rebate: “Ficou ruim nada, ficou super bom, chefe. O que acontece é que o funk se atualizou e os DJs antigos não acreditaram que ia acontecer isso, mas foi uma mudança muito radical. O baile funk do Rio se você tocar em 130, 135 já não vai dar a vibe. Tô falando baile de comunidade, nois [sic] têm que vir nos 150, ou 160, que é o arrocha“.

Realmente, de tempos em tempos acontece uma mudança natural no movimento. Da criação do tamborzão no fim dos anos 2000 até agora, aconteceram pequenas mudança, sempre respeitando o tradicional modelo de produção. E aí, com Polyvox e Rennan da Penha, o funk carioca mudou. A debate se dá se a mudança vai ou nao prejudicar o funk – como foi falado na conferência do Rio Parada Funk 2017 -, mas o que não está claro é que o 150 BPM não é uma via de regra, é apenas uma opção de produção. Assim como o melody é hoje.

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Polyvox é o nome artístico que Diogo Lima, 26, carrega – muito por conta de um acidente de trabalho. “Chutei o amplificador Polyvox que tinha e quebrei ele. A chapa do amplificador cortou meu pé, daí ficou aquela porra de Polyvox no chão e eu revoltado. Fui pesquisar pra ver se já existia algum nome assim, e nao achei nenhum, dai coloquei Polyvox”, explica. Natural de Jacobina, interior da Bahia, o produtor chegou e se estabeleceu na Nova Holanda, Parque União, zona norte do Rio de Janeiro, ainda quando criança. Ele se destaca nessa “nova escola” de produtores carioca, porém, já está na ativa há pelo menos 8 anos – e tem hit no currículo.

Visitar a 150BPM Records foi a melhor forma de compreender toda a situação. Pude perceber o ritmo profissional de trabalho que Polyvox aplica na equipe. O estúdio é organizado, a equipe tem uniforme e crachá de identificação, os horários são respeitados e no final a conta fecha. “Hoje eu me sustento com o funk, tudo que tenho foi por conta do funk. Tem uns seis anos que sobrevivo disso, se tenho carro, foi por causa do funk, se tenho CDJ, MPC, computador, um celular bom, foi tudo por causa do funk”.

A treta dos 150, ao invés de afastar Polyvox da música, só deu mais força para ele. “Vejo da seguinte forma: o 150 é um diferencial do funk carioca, existe o funk de relato, o melody e agora o ritmo louco. O funk que passou do 130, é o 150, que é o ritmo louco. E vou brigar por isso”, conta de forma confiante.

Muitos trabalhos do Polyvox são com uma rapaziada nova, mas o cantor Mr. Catra chegou junto para engrossar o caldo do time dos 150. “O negão [Catra] me convidou pra ir na casa dele e pá, fui na casa dele junto com o MC Delux, que é um dos filhos do Catra, e ele [Catra] falou: ‘pô teu som é diferente, teu som é maluco’. E eu falei: “pô, eu sou maluco mesmo’. Combinamos de fazer um som juntos. Botei o beat e, pela primeira, vez vi o Catra canetando. Botei só o beat e ele canetou pelo menos três músicas, mostrou que é bom, que é MC de verdade”.

Polyvox é um produtor muito confiante e determinado em produzir um trabalho de qualidade. Senti uma certa amargura quanto a treta que rolou por conta dos 150 BPM e a briga que ele enfrentou com a velha guarda do funk, foi briga de gente grande. E isso, nem de longe, desanimou ele. O produtor segue em frente. “Nós do 150 estamos quebrando muitas barreiras, muitas coisas, mas também tem muita gente puta porque estamos quebrando as panelinhas. Teve muito baile explodido no RJ, que você pedia pra tocar sua música, e o DJ residente não dava a mínima. Agora, é essa galera que critica, mas é claro, agora quem dita as regras somos nós.”

E para encerrar o papo com o produtor, ele deu a letra pra quem quer começar a produzir um trabalho autoral: “Nunca tenha medo, nunca leve a crítica. Chore pra todo mundo ver, grite pra todo mundo ver, não tenha medo de nada. Se você quer toca 150 e tal, toca sim. Toca 200BPM. Não tenha medo. O cara que te critica ele tem medo e inveja de você, se ele fala que você é isso ou aquilo, ele ta incomodado com você”.

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Acompanhe o trabalho do produtor pelas redes: Facebook // Soundcloud

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