Existem diferenças entre os passinhos do Rio e de SP?

Comportamento 4 semanas atrás

*Todas as fotos por: Renato Martins // Portal KondZilla

O funk e a dança sempre tiveram uma relação de muito amor. Desde os seus primórdios, o movimento está ligado com a expressão corporal: na época do Miami Bass, os passinhos eram coreografados, já nos tempos atuais, temos o passinho dos maloka e suas batidas características. Mas existem diferenças no movimento entre suas regionalidades, e assim como na música, as danças que são praticadas no Rio de Janeiro, berço do funk, recebem modificações quando chegam em São Paulo. Para entender um pouco melhor essas mudanças, mostramos pros cariocas d”Os Clássicos do Passinho (CDP)” alguns vídeos da galera paulistana dançando, e o que eles apontaram de diferente você confere agora no Portal KondZilla.

Formado por dançarinos de diversos bondes e comunidades do Rio de Janeiro, o grupo carioca é composto por cinco integrantes : Marcelly IDD, Pablinho IDD, Michel “Quebradeira Pura”, André DB e Sidy. Com a missão de disseminar a cultura da dança, o CDP realiza apresentações e oficinas por diversas cidades. Numa dessas apresentações – na verdade, um duelo de passinho, no SESC Santana, em São Paulo – nós trombamos essa galera.

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“Nos conhecemos da dança. Cada um faz parte de um bonde diferente, e lá no Rio de Janeiro tem muito bonde de dança”, explica Sidy. “A galera acaba se conhecendo”. Quem uniu o grupo foi o bailarino paulistano Rodrigo Vieira e suas viagens pelo Brasil. Ao conhecer a cultura da dança, o rapaz se encantou pelo originalidade. “Cada um tem seu jeito único de dançar, e isso faz com que tenha alguns passinhos específicos que levam o nome de quem criou”.

Diferente do que acontece em São Paulo, a dança no Rio envolve mais os participantes, a ponto de alguns seguirem a carreira de dançarino. Como a dança reflete na música e no social, o CDP explica abertamente como funciona a dança no Rio.

“No Rio de Janeiro temos as rivalidades de facções, por exemplo, e a pessoa de tal morro encontra dificuldade pra frequentar outra comunidade. Mas pra gente que vive de passinho, a situação é outra”, explica Marcelly, moradora do Morro dos Macacos, na Zona Norte. “O dançarino é reconhecido como um profissional, tem o respeito mesmo”.

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Enquanto o grupo discutia a situação de algumas comunidades cariocas – que atualmente enfrentam uma fase desastrosa na cidade – abordamos a questão da dança paulistana, com alguns nomes. Não foi surpresa ao perceber a proximidade dos dançarinos com os poucos paulistanos.

Mostramos para os integrantes do grupo o vídeo do “passinho do romano“, considerada a primeira dança ligada ao funk originalmente paulistano, um pouco depois da disseminação da música ostentação pela capital.

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“É uma dança que mistura muita coisa”, diz Sidy. “O Fezinho foi inovador mesmo, a parada da sarrada é algo bem característico de São Paulo, mas tem algumas coisas que já existiam no Rio de Janeiro, como no caso do sabará [movimento de pernas]”. O dançarino carioca também faz questão de lembrar que uma das grandes diferenças dos cariocas para os paulistanos é o molejo da cintura, destacando que em São Paulo a galera é mais “quadradona” e dura”.

“A diferença é que no Rio, o sabará é mais rápido, e em SP é algo mais lento e com uns pulinhos”, continua Sidy Megadance. “Outra coisa é a rabiscada [movimento de rabiscar o chão com os pés], que também foi trazida do Rio pra SP”.

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É comum se referir a dança do funk como “passinho” e todas as suas subcategorias, como por exemplo: passinho foda, passinho do romano, passinho dos maloka e afins. Mas, na capital carioca, existe mais uma diferença na dança e se dá entre o “passinho” e a “dancinha”. O mais popular – passinho – ganhou fama mundial e tem uma mistura abrasileirada. Tem de tudo um pouco, indo do break, hip-hop, até o samba, frevo e funk, obviamente.

Enquanto o passinho é mais frenético e abusa de movimentos requebrantes e muito molejo no quadril, a dancinha é algo mais swingado e trabalha mais a parte superior do corpo como mãos, braços, ombros, pescoço, rosto e tronco. Lembrete: não pense que uma é para homens e outro mulheres, a dança é livre e ambos os gêneros se utilizam dos movimentos das duas danças.

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A “dancinha” carioca apresenta mais semelhanças com o passinho dos maloka. No entanto, Sidy explica que no caso do novo passinho, existem ainda mais elementos diferentes, até de fora do eixo Rio-SP. “O passinho dos maloka tem mais essa coisa de mexer os braços, de deixar o corpo mole, algo mais próximo da dancinha no Rio de Janeiro, principalmente nessa coisa de mexer o ombro ‘pra lá e pra cá’. Mas o que mais me chama a atenção, são os passos americanos. A galera se inspira bastante nas danças lá de fora, fazendo dab, umas movimentações diferentes com os braços”, completa.

Diretamente envolvida nessa situação, a internet e a popularização do YouTube, fez com que todo mundo soubesse de tudo o que tá rolando em todo lugar. O grupo já estava com as respostas na ponta da língua sobre as diferenças regionais das danças. E o intercâmbio é tão intenso, que Michel “Quebradeira Pura”, um dos integrantes do grupo, havia marcado de trombar o Fezinho Patatty para trocar umas “figurinhas”, ou melhor, passinhos.

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Depois de muita conversa e truques de dança, eu estava inspirado para arranhar uma ‘rabiscada’ com o grupo, mas o horário não permitiu. Antes de agradecer pela conversa, o grupo se arrumou correndo para começar o “Duelo do Passinho”. Levei um tempo para entender que essa disputa é mais interessante do que o próprio nome já diz.

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A palavra duelo pode remeter a algo violento, de luta ou guerra entre duas pessoas, mas no caso da dança, a violência dá lugar ao molejo e a arte. Em geral, duas pessoas “se enfrentam” pra ver quem entretém mais a galera que está assistindo, sempre respeitando o “adversário” da vez. Uma das regras é não levar a disputa pro pessoal.

Descalços, eles duelaram durante uma hora inteira, se revezando e fazendo o público presente ao SESC admirar aquela movimentação de braços, pernas e quadris que parece algo totalmente desorganizado, mas ao ritmo do tamborzão, fica organizado. As pessoas se questionavam: como uma dança tão interessante poderia vir de um ritmo marginal, enquanto os dançarinos convidavam crianças para participarem do aulão.

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O papo com o grupo foi bem interessante, principalmente por perceber como a mesma música é dançada de forma diferente em diversas regiões . Além disso, pode até parecer que não, mas a música e a dança estão mais próximas do que se imagina, assim como a influência das cidades. A popularização da internet permitiu que pessoas de diferentes interajam – por vídeo ou texto – e façam com que todo o movimento evolua junto. Enquanto essa ‘metamorfose’ acontece , aproveite a nossa galeria para se divertir com a alegria dos dançarinos.

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