A influência das Divas Cariocas no movimento funk

Matérias 08/03/2018

*Foto: Matias Maxx// Portal KondZilla

No Dia Internacional da Mulher as campanhas por respeito são muitas, mas apenas pedir por respeito não parece eficaz. Precisamos de ações concretas para mudar nossos ambientes. Querendo mudar essa narrativa, nesse da 8 de março o Portal Kondzilla chama a atenção para dificuldades que as mulheres enfrentam e, principalmente, exaltar o trabalho das minas que venceram as limitações.

As “Divas do Funk” foram as mulheres que iniciaram o movimento das MCs mulheres no funk carioca, muito bem retratado no documentário “Sou Feia Mas Tô Na Moda“. Elas trilharam o caminho do estilo que hoje todos nós conhecemos as letras. Com anos de trabalho árduo, muitas vezes mal recompensado e reconhecido, é fácil lembrar suas performances calientes, refrões e personagens, mas é difícil entender a complexidade das questões que elas enfrentaram no meio. Desde ter pouco respeito por cantar coisas que os homens sempre cantaram até os cachês mais baixos, o holofote jogado nas divas não ajuda tanto na hora de ter seu espaço respeitado nos ambientes e eventos. Conversamos com algumas das mulheres do funk, desde as primeiras a desbravar o terreno incerto até as novas DJs e MCs que hoje procuram um espaço no mercado, para entender como elas persistiram e as lições que levam e ensinam para outras que seguem o sonho de ser artista.

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*Foto: Matias Maxx // Portal KondZilla

Quando se pergunta pras minas suas maiores inspirações, um nome que nunca fica de fora das menções honrosas é o da definitiva rainha do funk: Tati Quebra-Barraco. Perguntamos para a Tati como foi iniciar esse caminho e o sentimento de ter aberto os caminhos. “O sentimento que eu tenho de ter aberto portas para as mulheres no funk? Eu sinto que eu cheguei chegando, eu vim quebrando os tabus, eu estava cantando e mostrando o que eu sou, minha realidade de vida. Acho que a galera foi se inspirando nisso. Eu acho o luxo. Ser homenageada dessa forma, abrindo as portas. Fico sem palavras”, explica em entrevista ao Portal KondZilla.

Tati foi inspiração para muitas mulheres. Inclusive, a MC Carol nos contou que Tati foi sua maior inspiração, que sempre se espelhou muito na sua postura em palco, muito forte e até meio ‘masculina’. “Me espelhei na postura dela, que é muito forte. Acho que consegui” conta orgulhosa a intérprete de refrões como da música “100% feminista”. As duas causaram um impacto enorme com suas letras e presença, mas Carol reconhece que quando estourou, em 2016, o caminho a seguir na sua carreira já estava parcialmente pavimentado. “Não teve [tanta] dificuldade, a gente já chegou numa época que era muito mais tranquilo, com muito mais aceitação. Já tacaram latinha de cerveja, garrafa, copo no palco. Mas não é nada comparado ao que a Tati passou. Na época dela tinha o que? Ela e mais uma? No meio em que todo mundo era homem? Imagina como foi pra ela”.
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*Foto: Reprodução I Hate Flash

Lara Dantas, mais conhecida como Dj Larinhx, conta que depois que entrou no meio percebeu que a maior problemática era como os gêneros eram remunerados de formas diferentes. Ela, que toca na maioria em festas da zona sul carioca, fala de uma realidade que artistas que atuam principalmente em bailes também nos contaram ser uma constante. “É muito difícil, você dá um preço que é justo pelo trabalho que elas fazem e o contratante vem e diz ‘mas ela nem é fulano de tal’ e fala que só vai dar metade do cachê original” nos contou um produtor de funk em um camarim da vida. O pensamento de que os trabalhos produzidos, curados, performados e interpretados por minas tem menos lucro que os realizados por homens não poderia se provar mais infundado em um ano em que vimos a ascensão internacional de artistas como Anitta, que teve o single “Sua Cara” por seis semanas nos top charts da Billboard chegando a ocupar 26° lugar na lista, e Ludmilla, com o single “Cheguei” chegando a ocupar a impressionante nona posição dos charts do iTunes do Brasil.

Dois exemplos de cantoras que movimentam muito público e dinheiro, e que tendo começado no funk como MCs, levam essa sonoridade e estética totalmente incorporados aos trabalhos mais pop’s e de alcance internacional. E nesses terrenos têm enorme reconhecimento. A história aqui segue o padrão de muitas outras profissões. “Tem muitos lugares que eu chego e que falam, ‘será que ela é isso tudo mesmo que falam?’. E depois que eu começo a tocar que eles vêem que o bagulho é de verdade”, conta a DJ Iasmin Turbininha, que sentiu muito na pele a descrença.

iasmina*Foto: Mariana Bernardes // Portal KondZilla

Apesar da realidade ainda estar longe de ser justa do existe hoje, o otimismo e força de vontade para moldar novos meios e possibilidades foi o verdadeiro denominador comum dessas histórias.“A gente pode tudo!” – disse Tati. E todas vêm cumprindo a função de abrir o caminho pras próximas. Larinhx reforça a ideia que “[o funk] é o futuro, é a periferia tendo voz. O funk é ilimitado”, enquanto Juliana, do grupo Juliana e as Fogosas, reafirma a fé inabalável que todas precisam ter para entrar e se manter no meio. E é claro o amor imenso pelo funk: “O funk já ultrapassou barreiras imagináveis. Quem diria que aquele som de favelado iria chegar tão longe?! Quebrou todas as barreiras. Chegou em lugares que nós nunca imaginamos. Hoje eu só quero que continue quebrando barreiras,quebrando o preconceito e cada vez ganhe mais força. Por que as/os MCs pioneiros no funk lutaram muito pra esse dia chegar, e chegou. Hoje tenho o prazer de falar: Da favela para o mundo, o funk venceu. A favela venceu!”.

E todos vencem quando mulheres têm voz e são tratadas de forma igualitária em todos os âmbitos de suas vidas. Principalmente na música, que dissemina tanta informação pelo mundo. Diversidade é uma fonte inesgotável de conhecimento e ouvir as vozes de quem sofre com as opressões é a melhor ferramenta para mudar o jogo, começar com coisas simples como remunerar de forma correta sem base em discriminação já é um ótimo início de caminho.

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Mariana Bernardes é fotógrafa e atua na cena do baile funk carioca. Ela é colaboradora do Portal KondZilla.

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