MC Dede, orgulho de Cidade Tiradentes e espelho para molecada

Matérias 2017/07/20

*Todas as fotos por Felipe Max // Portal KondZilla

Gravação de videoclipe de funk na quebrada é tipo jogo de Copa do Mundo. Ruas lotadas, bares com movimento acima do normal, a molecada se amontoando para conseguir ver algo e registrar o momento de alguma forma. Quando colei na gravação do clipe do Dede foi assim, e reparei que um dos diversos garotos ali presente, estava triste. Seu tamanho impedia que ele tivesse uma visão clara da situação.

– Pai, vamos mais para frente. Ali, ali ó, com o Dede!

Assim começava o dia. Hoje ele é um dos exemplos de sucesso para a molecada de Cidade Tiradentes, distrito localizado no extremo leste de São Paulo. Pra sacar como é essa situação, o Portal KondZilla participou das filmagens do seu mais novo videoclipe e retrata mais sobre a relação CT-Dede

Para situar um pouco melhor, antes de se tornar o MC Dede, Josley Caio de Faria, 28, nasceu e foi criado em Cidade Tiradentes. A ideia de cantar surgiu em 2009, e o máximo que conseguia era se apresentar em quermesses e festas menores em toda a Zona Leste. O garoto ficou conhecido como o ‘Menino do Kit’, já que acertou com a música “Olha o Kit”, na época da explosão do funk ostentação na capital.

De 2009 até o momento atual, o MC se segurou firme e passou por todas as fases do funk desde então, acumulando sucessos como “Os Mlk é Mídia“, “Pam Pam Pam“, “Passei de Oakley“, “Pow Pow, Tey Tey” e construindo uma carreira no funk.

Agora, o “Menino do Kit” é pai de família, com 28 anos nas costas e esperando o nascimento do segundo filho, diferente daquele garoto que frequentava quermesses para mostrar o trabalho. Com essa longa trajetória na música, ele faz com que todos, desde a criançada de agora até a galera mais velha, vejam nele um exemplo de sucesso pessoal e profissional.

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Colamos na CT por volta da 15h. Era uma tarde típica de inverno brasileiro, onde o sol está presente, mas parece não cumprir a função de aquecer. E a notícia de que rolaria uma gravação de videoclipe de funk já tinha tomado a quebrada. As ruas por onde passávamos dentro de uma van estavam tomadas, e algumas pessoas faziam uma espécie de procissão, acompanhando a van de forma messiânica.

Enquanto o diretor do videoclipe, Gabriel Zerra, procurava o melhor lugar para realizar a gravação, o ‘Messias’ da CT aproveitou o tempo ocioso para tirar algumas fotos e falar ao Portal KondZilla a importância daquela quebrada na sua vida.

“Ah, aqui é minha casa, meu ouro. Aqui é onde está a minha inspiração, meu foco é nela [na quebrada]. Várias vezes pensei em desistir. Você tem responsabilidades, daí não consegue emplacar [uma música], chega uma molecada nova também fazendo um trampo legal”, conta. “No entanto, minha família, meus amigos e principalmente meus fãs sempre me ajudaram e não me deixaram desmoronar. Nesse mundo do funk, se você não tiver a cabeça boa, você não consegue se manter”.

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Depois que o MC deu uma atenção pra galera, começaram as gravações. A rua Apóstolo Matheus foi tomada por moradores das mais diversas idades, as lajes se tornaram uma espécie de camarote, onde as pessoas se espremiam para acompanhar a filmagem.

Há alguns anos, Dede e o funk viviam outra realidade, longe do glamour e dos holofotes. MCs ainda não tinham uma vida financeira invejável, muito menos uma disciplina de trabalho profissional, com direito a auxílio de especialistas em canto e impulsionamento de carreira, por exemplo.

“Quando eu comecei, lá em 2009, não tinha muito recurso, cantava em quermesses, em cima de caixote. Daquela época, sou um dos poucos que conseguiu se manter”, explica o MC.

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A Cidade Tiradentes conta com cerca de 280 mil habitantes, é um dos distritos mais populosos do município de São Paulo e, segundo a prefeitura, abriga o maior conjunto habitacional da América Latina, com cerca de 40 mil unidades populares.

Josley conta que o sonho de ser MC era presente na mente de muitos na CT. Ele se perde ao tentar contar a quantidade de amigos que, nas antigas, tentaram trilhar o mesmo sonho junto com ele, mas ficaram pelo caminho pelos mais diversos motivos.

“O meu recado para a molecada que quer seguir esse caminho do funk é que nunca desistam dos seus sonhos. Acredito que eu seja um bom exemplo disso”, finaliza.

As horas passam e as gravações vão rodando por parte da Cidade Tiradentes. Ruas e vielas são tomadas por câmeras e gente querendo ver tudo de perto. E mesmo com todo o barulho e incômodo, os moradores parecem não se incomodar.

Em um dos ‘sets’, no interior de um beco, um morador até se assusta. Não à toa. Uma renca de gente na porta da sua casa, câmera, luz e todo material que uma gravação tem direito ao redor do seu lar não é comum, ainda mais às cinco da tarde. Outro morador vai até a janela e confere, assustado, tudo o que acontece. De prontidão, Dede aparece e explica o que tá rolando e a importância da ajuda do morador com o colega da quebrada. E a reciprocidade vem de prontidão, logo o morador dá uma força.

Essa não foi a primeira intervenção do MC com os moradores durante as gravações, era uma espécie de pedido de ajuda para um semelhante, no qual o trabalho final ajudaria a todos da comunidade.

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Cai a noite. Após mais de cinco horas de trabalho, as gravações chegam ao fim e o cantor sai do beco improvisado no set em direção ao público que acompanhava de olhos vidrados na gravação, aguardando pelo momento de atenção com o cantor. Dezenas de selfies com os fãs fecham a noite para depois Dede tomar o rumo de casa.

E lembra daquela criança, que no meio da multidão queria dar um jeito de ver o Dede? Seu pai deu uma resposta que resume o desejo de muitos na quebrada.

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– É filho, quem sabe um dia você vira um MC também, né?

A impressão era que Dede havia se tornado uma espécie de ‘orgulho da Cidade Tiradentes’. Sabe aqueles caras do interior, que ganham o mundo com seu trabalho, se tornam famosos e ganham a chave da cidade, são conhecidos e amados por todos? Esse é o Josley, cria da Cidade Tiradentes.

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