Neguinho do Kaxeta leva a quebrada que nasceu no nome e no coração

Matérias 2017/07/04

Foto: Vinicius Kepe // Portal KondZilla

Júlio César Ferreira, 31, o MC Neguinho do Kaxeta, leva o nome da sua quebrada no seu nome artístico, e não é por um acaso. O MC é a principal figura de uma das maiores favelas de São Vicente, no litoral de São Paulo, e dono dos sucessos: “Time de Monstrão“, “Chave de Ouro“, “A Firma Tá A Mil“, “Sem Simpatia” e “De Ponta a Ponta“. O Portal KondZilla foi ver como é essa relação do MC com a comunidade e também conhecer um pouco mais da história de um verdadeiro sobrevivente do funk.

Marcamos com Neguinho às 15h30, mas por conta de outros compromissos – e dos bailes na madrugada anterior – o cantor acabou se atrasando um pouco. Mas isso, nem de longe foi um problema pois ao chegar na comunidade fomos bem recebidos pela galera do Caxeta e do Smoking Futebol Clube. O compromisso virou um evento e rolou até churrasco, cê acredita?

Durante aquela tarde que ficamos na comunidade do Caxeta, percebemos que o Júlio César é uma espécie de referência para todos naquele local, independente se o cidadão gosta ou não de funk. Tanto que só encontramos o ponto de encontro ao dizer “Viemos falar com o Neguinho do Kaxeta” e a rapaziada logo respondeu “É para a entrevistá-lo, né?”.

2Ao fundo, a comunidade do Caxeta

Neguinho chegou de bicicleta, cumprimentou a todos e deu uma atenção para gente. Sentamos num banquinho de concreto, na principal praça do bairro. E, lógico, queríamos saber o que a comunidade do Caxeta representa para o Júlio César.

“O Caxeta é minha vida, lugar onde eu nasci e representa tudo para minha vida, porque minha família e meus amigos ainda moram aqui”, conta de forma nostálgica. “O que falta [hoje], é o pessoal abrir a mente para essa parada da quebrada, de levar no peito o lugar que você nasceu”, relata o MC.

E para situar melhor, a comunidade do Caxeta fica em São Vicente, uma das nove cidades que compõe a Baixada Santista e faz parte do bairro Jockey Clube, um dos mais populosos do município com cerca de 30 mil habitantes.

Júlio entrou no circuito do funk no final dos anos 90 com a antiga dupla “Lan e Neguinho”. Após o término do projeto – sem um motivo explícito -, levou a quebrada no nome artístico graças ao empurrãozinho do saudoso MC Primo.

“Logo depois que a dupla acabou, surgiu a oportunidade de cantar em um baile. Daí o Primo chegou pra mim e falou: ‘Ó, te coloquei para cantar num baile, mas só ‘Neguinho’ não dá, né? Coloquei Neguinho do Kaxeta”, conta o MC, sorridente ao lembrar do parceiro. “Eu abracei a ideia e o nome pegou”, finaliza.

Esse movimento de assumir a quebrada no nome artístico é comum no circuito do funk. Além do nosso entrevistado, temos: MC Bó do Catarina (Favela Sá Catarina de Moraes, em São Vicente), Duda do Marapé (morro do Marapé, em Santos), MC Boy do Charmes (Favela da Vila Charmes, em São Vicente) como também na capital com o MC Menor da VG (Vila Gustavo) e MC DaLeste. No Rio de Janeiro também temos alguns casos, como o MC Nego do Borel (Morro do Borel) e RD da NH (Rodolfo da Nova Holanda).

5“Blessed”, Neguinho do Kaxeta.

Neguinho do Kaxeta é um dos raros casos de carreira no funk. Ele participou de todas as fases do funk paulista: começou a cantar final dos anos 90, esteve na época dos funks conscientes e proibidões, passou pela ostentação e agora vive a fase atual da putaria.

Atualmente, Kaxeta é um exemplo para a nova geração de talentos que surge todos os dias – isso se a molecada quiser escutar, é claro.

“Eu sou uma prova que os [MCs] da antiga podem se encaixar com os moleques novos. Eu sei que minha história está feita, mas essa história não vai colocar o pão na mesa”, conta o MC, ao analisar as fases do funk. “Só que a molecada também tem que saber ouvir os caras da antiga e não achar que são os picas”. Afinal, são pelo menos 15 anos de carreira e experiência.

A Baixada Santista foi o berço do funk no estado de São Paulo, entretanto, a Baixada anda com uma produção escassa na questão de MCs. Neguinho do Kaxeta é um dos poucos do litoral paulista que levam essa bandeira pela capital do estado e pelo Brasil.

Entre os anos de 2009 e 2012, quatro MCs da baixada foram assassinados, todos no mês de Abril. Em 2012, Júlio César sofreu uma tentativa de assassinato. O cantor foi alvejado por pelo menos 4 tiros e um deles ficou preso no seu corpo, e por pouco não virou mais um número nas estatísticas. “Depois desse episódio, queria provar para mim mesmo que era capaz. Cantar funk é a única coisa que sei fazer da vida”, desabafa com um tom triste, algo bem diferente do restante da conversa.

No começo de 2013, o funk ostentação começava a perder forças para a putaria. Mesmo assim, Neguinho aproveitou a onda dos videoclipes com uma música ainda na pegada ostentação. “A Firma Tá a Mil”, que ultrapassou a marca de 35 milhões de visualizações no Youtube e mostra a superação do MC para o evento mais traumático da sua vida.

E também nessa época, as produtoras começaram a se fortalecer em São Paulo, se tornando um alicerce importante para a profissionalização do ritmo, que até hoje é marginalizado.

4O tempo passa, mas Kaxeta se mantém firme no funk.

Para o cantor, que já viveu diversos momentos altos e baixos na carreira, a molecada de hoje se ilude com a importância das produtoras para a carreira de um artista do funk.

“Eu vim de uma época que o artista era empresário, contador, produtor. Hoje, não é que está mais fácil, mas tem uma estrutura melhor”, explica, ao comparar os momentos da sua carreira. “E a molecada acha que se não está numa produtora, nunca vai fazer sucesso. Esse pensamento está errado. Hoje, eu estou numa grande produtora (GR6), que me dá todo o suporte, mas eu tenho que fazer por onde. Você tem que mostrar o seu valor, independente de tudo”. Anotou? Paizão Kaxeta deu a letra.

Depois da nossa conversa, rolou mais uns trinta minutos de resenha e Neguinho voltou para o churrasco com os parças na quebrada – e nós fomos embora.

Como o próprio o MC diz, ele foi humilhado e também alvejado, mas nada disso fez ele desistir. Até porque, o intuito da vida é sorrir, e para o cantor “não há lugar melhor para sorrir do que a sua quebrada”.

3Neguinho sorrindo junto da comunidade do Caxeta.

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