“Ninguém vive de fama”: Praga, o ‘Caneta de Ouro’, conta sobre os bastidores da composição

Música 2017/10/24

*Foto: Vincent Rosenblatt // vincentrosenblatt.photoshelter.com

Para muitos envolvidos com funk, a fama e o reconhecimento são formas naturais de ver que seu trabalho deu certo. Para um MC, o termômetro do sucesso é ver geral cantando a música que ele escreveu. Ou não, pois a essa altura do campeonato você já tá ligado que tem muito MC que não compõe suas músicas – o que está longe de ser um demérito. Para os compositores, a regra da fama e do reconhecimento não se aplica de forma constante. Na verdade, dá para contar nos dedos os caras que escrevem letras de funk e tem algum reconhecimento, e entre eles está o carioca Thiago Jorge Rosa dos Santos, 32, ou melhor, o Praga, autor dos sucessos “Vida Bandida I e Vida Bandida II“, clássicos interpretados pelo MC Smith, “10 Mandamentos“, interpretado pelo MC Menor do Chapa e MC Pedrinho, e o mais recente “O Crime Tá Aí“, cantado pelos MC Orelha e MC Menor do Chapa.

Autor de diversos sucessos, principalmente do funk carioca, Praga – apelido que ganhou do tempo de escola – é um cara de voz mansa (pra não dizer tímido, já que nossa conversa foi por telefone), mas de frases bem elaboradas e concisas. O talento de compor vem desde a infância – Thiago escreve letras de músicas desde os oito anos de idade -, mas esse papo de ser celebridade, famoso, não está nos planos do “Caneta de Ouro”. Seu desejo é ver cada vez mais suas músicas rodarem as pistas.

“O compositor trabalha nos bastidores, então é natural [a falta de reconhecimento]. Quando você faz uma música pro MC, é lógico que quem vai colher os frutos é o próprio MC. É natural a gente falar: ‘ah, a música do Roberto Carlos’, mesmo não sendo ele quem compôs. Então acho que o compositor, de funk ou de qualquer outra vertente, tem que ter essa noção”, explica, durante entrevista por telefone ao Portal KondZilla.

image8*Foto: Vincent Rosenblatt // vincentrosenblatt.photoshelter.com

“Hoje somos festa, amanhã seremos luto” – Vida Bandida

No entanto, devido a quantidade de sucessos que Praga escreveu, pelo menos pra ele, o reconhecimento é uma marca já atingida. E não foi só porque já tem uma galera pedindo composições pra ele, mas também elogiando as já feitas. O trabalho de Praga também já trouxe certa recompensa financeira. “Não posso – nem quero – mentir, consigo viver com o dinheiro das minhas composições. Mas tenho que complementar aqui e ali, não é uma maravilha”.

O compositor de sucesso de hoje, já tentou ser MC no passado. Lá em 2003, quando ainda era um adolescente, Thiago começou a carreira no funk segurando um microfone, mas a vergonha foi deixando a tarefa mais difícil. Subir no palco era quase um desafio.

“Eu era muito envergonhado, tremia tudo quando ia cantar. Meu negócio era compor, eu até ganhava um dinheirinho com as minhas letras”, explica o compositor, que soube reconhecer onde mandava bem, e onde errava. “A vontade de ser MC foi acabando aos poucos”.

“Quem conhece a violência, sabe dar valor a paz” – Vida Bandida 2

Entre tremores no palco e algumas letras vendidas, chegou 2008. Eis que uma luz surgiu na vida do compositor e MC Smith, um dos maiores expoentes do funk carioca, bateu em sua porta, oferecendo uma parceria compositor-intérprete.

“O Smith me chamou pra trampar com ele, isso por intermédio de um amigo em comum. Ele pediu pra escrever umas músicas, e eu ganharia um dinheiro com isso. A primeira música que lançamos foi ‘Visão de Cria‘, e daí fomos desenvolvendo uma parceria legal”, explica.

Praga faz questão de conjugar o verbo lançar na primeira pessoa do plural – nós. E ele não está errado, a composição é uma parte fundamental numa música. Ainda mais quando falamos de funk consciente, especialidade do carioca em questão. Não é querer aparecer ou algo do tipo, é só reconhecer a importância do trabalho.

Além de “Visão de Cria”, Thiago e Smith têm um histórico de sucessos, entre os principais está “Vida Bandida“, que deu tão certo que ganhou uma segunda versão. No entanto, por motivos meramente profissionais, a parceria acabou em 2012. Foi então que o “Caneta de Ouro” firmou outra parceria das boas, dessa vez com o MC Menor do Chapa.

image7*Foto: Vincent Rosenblatt // vincentrosenblatt.photoshelter.com

“Dono do ouro e da prata é Jesus, e ninguém leva nada da Terra” – Visão de Cria

Thiago também faz questão de dividir o pão, e aproveita para citar sobre o trabalho de “colegas compositores”, como os cariocas Léo da Zona Sul e Lano, os paulistanos 2N e B.Ó., além do já falecido MC Felipe Boladão. Morador da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, o compositor reconhece o valor e a importância das novidades que surgiram recentemente no funk carioca, como o arrocha-funk e o 150BPM, mas destaca que o consciente nunca perderá seu valor.

“O [funk] consciente tá voltando. O 150BPM é legal nos bailes, as coisas evoluem. Não dá pra ficar só no tamborzão”, opina. “Mas cada um tem seu espaço, o espaço do 150, por exemplo, é nos bailes, nas festas. Não conheço ninguém que fica escutando música em 150BPM no carro. Se a pessoa quiser escutar uma música com uma letra mais elaborada, tem que ser em 130BPM, pra poder assimilar a mensagem. E, cada um na sua, o funk só tende a evoluir”, finaliza.

Mas por quê um dos maiores compositores de funk carioca continua fazendo parceria com MC, sendo que ele poderia ganhar muito mais dinheiro vendendo suas composições por aí? É, parece que a realidade é outra, pois o sistema para ele conseguir receber o dinheiro que lhe é cabido pelas suas composições não funciona, e isso é o que mais chateia Praga.

“Falta respeito ao pessoal do funk. Pra você ter uma noção: quando registro uma letra, preciso fiscalizar onde minha música tá tocando, pra repassar a informação pros órgãos responsáveis e receber o dinheiro que me é devido. Agora, você imagina eu indo por aí, de baile em baile, vendo quando minha música vai tocar? Sem dúvidas, ganho mais dinheiro com minhas parcerias com MCs”, desabafa.

image3*Foto: acervo pessoal – Praga

“A paz vira negócio onde a guerra prevalece” – O Crime Tá Aí

Essa realidade faz com que a carreira de compositor fiquei mais difícil do que já é, inclusive por quem trabalha no funk. A falta de profissionalismo, de reconhecimento, de pagamento justo, entre outras coisas, fazem com que ser compositor no funk se torne algo quase que indesejado. Porém, quando se tem talento e dedicação, tudo isso vem com o tempo.

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