O verdadeiro registro das festas de periferias

Juventude 25/05/2018

*Todas as fotos por: Jeferson Delgado // Portal KondZilla

Quem nunca foi num rolê foda e no dia seguinte contou a experiência que viveu?! Se isso te pareceu uma boa ideia, o Johnatan Vieira Santos, 23, mais conhecido como Hiiits, decidiu tomar a frente e contar suas histórias de rolês através de vídeos postados em seu canal no YouTube. Se ir no rolê é legal, ir pro fluxo e registrar tudo o que rolava foi o diferencial, afinal, essa festa de rua ainda tem pouco acesso de um público geral. O Portal KondZilla te explica agora a história desse jovem empreendedor.

Para chegar no conteúdo certeiro do canal, Hiiits comprou uma câmera portátil – também conhecida como câmera de ação – e decidiu mostrar seu dia a dia, ou melhor, o resumo das suas noites em bailes funk. O primeiro vídeo na temática “Vlog em Fluxo” foi no baile da DZ7. O resultado? 124 mil visualizações, um recorde no ano de 2016 para o canal dele. “Eu vi que o número de visualizações estava aumentando bastante, porém continuei gravando da mesma forma”, conta, de forma saudosa. “Pensei: ‘agora vou em outro baile’. No caso foi o Helipa, que eu sempre colava desde que cheguei em São Paulo”.

“Uma vez voltei na DZ7 e um mano já me reconheceu, ‘você não é aquele mano que faz uns vídeos?’, falei ‘carai, mas já?!’. Não tinha nem um mês que postei o video”. Ele continua: “cada vez que eu voltava nos bailes, o pessoal me reconhecia, pedia pra tirar foto. Com isso vi que o negócio tava andando, nem era um bagui que eu imaginava e já tinha um monte de gente me parando na rua. Que bagui de louco”. Parece que ele tinha encontrado o formato pro seu canal.

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O rapaz é natural de Araguari, que fica em Minas Gerais. A história do Jonathan com o funk começou lá 2010, quando foi morar em Santos com sua mãe e sua irmã. O cara era vizinho de nada mais nada menos que alguns relíquias da Baixada: Duda do Marapé e também a dupla Renatinho e Alemão. Tipo, mesmo que ele não quisesse, o funk entrou na vida dele. Era inevitável o dia que ele iria pro baile funk. Foi nessa época que ele decidiu criar um canal de música para divulgar as músicas de funk da época.

A primeira vez no baile chegou a ser surpresa e ele caiu de cabeça com os amigos. “Foi engraçado [ir no baile funk] porque eu não usava as mesmas roupas que todo mundo”, conta, aos risos. “Mas não me senti acanhado, parece que naquela época a roupa não era tão importante como hoje”.

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Depois que aprendeu a gostar do funk, a família resolveu mudar de cidade de novo, o que não foi bem aceito de cara, mas quando ainda se é adolescente nem sempre dá pra dar o rumo que queremos na nossa vida. “Eu já pensei em estudar Análises de Sistema, mano. Porém, o mais próximo que eu cheguei foi fazer um curso de manutenção de celular”.

Ainda no estado de São Paulo, se mudou para a capital, próximo ao bairro da Água Funda. Na época, Hiiits era fotógrafo dos eventos do site hitspower.com e muitos amigos já o chamava de Hits Power. Mas sabe como é apelido colocado: ele não curtia muito, mas os amigos não paravam de chamá-lo assim, até que decidiu aderir o apelido apenas de Hits, deixando o Power de lado. Daí, pra dar um toque de originalidade na parada, ele acrescentou mais duas letras I no apelido e estava criado o Hiiits.

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Quem viveu o boom do funk na internet em 2012 sabe como era uma terra sem lei, e na sede por ter alguma popularidade diversos canais surgiram promovendo o movimento que surgia na capital e Baixada. Muitos deles, como Natinho e THqzl, eram referências pro funk, mas em pouco tempo os artistas começaram a perceber a relação de monetizar os vídeos e aí… bom, aí era strike a rodo.

“A fase mais difícil foi quando o canal era para divulgação de música e tinham os strikes. Eu já tava quase perdendo o canal, já não queria fazer outro por que já tava com uns 10 mil inscritos, pra mim já era grande naquela época, ganhava um dinheiro com a monetização. Daí pensei: agora o bagui tá dando um ruim, fudeu!”.

QUARTAS INTENÇÕES ?☻

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Sabendo que tinha uma galera fazendo uns vídeos em bailes, Hiiits tentou arriscar também. E a aposta deu mais que certo. Atualmente, a escolha e preparação para colar nos bailes é feita por meio das redes sociais. Ele procura se informar para ver se o baile não vai moiar através de eventos e grupos. Os inscritos do canal recomendam alguns fluxo para Hiiits colar e gravar. “Já chegou momento de ir e não ter baile, e eu ficar na rua longe de casa até o ônibus voltar a rodar”. Com o canal crescendo, os convites de baile cresceram também, a maioria é frequentador que convida pra colar.

Mas, né, a vida não é um mar de rosas. Ainda mais pra quem foi aprendendo com tapa na cara. Hiiits já perdeu algumas coisas por conta do canal, muitos inscritos pediam para ele gravar e mostrar um pouco da sua rotina de trabalho como atendente, só que isso não foi a melhor coisa que ele fez. “Tava mostrando pro pessoal minha rotina de trabalho, porque geral perguntava o que eu fazia, etc. No dia que eu tava gravando, fui atender uma mulher com a câmera na mão, gravei o rosto dela. Assim…. foram poucos segundos, uns 10 segundos no máximo até menos, só que a mulher se reconheceu no vídeo e ligou na empresa falando que apareceu em um vídeo no youtube na loja. Dois meses depois tô lá trampando tranquilão e recebo a cartinha me mandando embora por justa causa, por que eu tinha feito uma gravação da empresa e tudo mais, mó b.o”.

Johnatan segue em busca de um trabalho novo há cerca de 3 meses. Dividindo tempo entre editar um vídeo e enviar currículo online, ele diz que não pretende viver somente da receita do canal. Através desse trabalho, ele pretende ter um futuro nesse mundo do funk e das festas, talvez como DJ ou algo relacionado. “Se a gente for viver do Youtube a gente tá lascado, um dia que não envia os vídeos e a monetização é baixa, tem também os problemas com os palavrões que eles pedem pra tirar. Se eu to num lugar que toca muito funk de fundo, muitas vezes não dá pra colocar muita coisa no vídeo e prejudica bastante”, explica.

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Hiiits conta que acabou se tornando inspiração para outros canais que estão com o mesmo tipo de conteúdo. O que era apenas uma brincadeira, acabou virando trabalho, além de poder retratar nas vídeos o estilo de vida de jovem de favela. “Minha intenção é ir no máximo de bailes possível, e os mais diferentes possíveis. Com o canal estou tendo essa oportunidade”.

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