Pesquisadora Mylene Mizrahi retrata a estética do universo funk

Matérias 2017/09/18

*Foto: reprodução facebook

É curioso observar como o funk, mesmo sendo um movimento marginalizado, recebe cada vez mais olhares acadêmicos. Seja por documentários, seja por monografias, o funk vem sendo estudado desde o seu surgimento (já ouviu falar do “O Baile Funk Carioca” – 1988?). Um desses olhares, é da doutora Mylene Mizrahi no trabalho “A estética do funk carioca: criação e conectividade em Mr. Catra“, que observa a estética do funk carioca, muito por conta do fascínio que a pesquisadora teve pela famosa “Calça Gang“, popular no começo dos anos 2000 por “levantar o popô da mulherada”. O Portal KondZilla aproveitou uma rara tarde de chuva no Rio de Janeiro para trocar uma idéia com a pesquisadora.

O trabalho de pesquisa surgiu em um momento que as mulheres do funk carioca começaram a falar da “Calça Gang”, um modelo produzido com uma malha confortável e elástica que ajudava na dança e também dava destaque pro ‘popozão’ da mulherada. Mylene, não fazia parte do circuito do funk na época, mas trabalhava com moda e se encantou com a vestimenta. A partir daí, começa a história da pesquisadora no funk.

Mylene se aprofundou no assunto “Estética do Funk” e conseguiu entender também o movimento do público masculino. Sua tese tem como personagem central o Mr.Catra, mas não se confunda: ela usa-o como personagem de dentro do funk e partir disso descobre outros aspectos da cultura. Com o trabalho sendo premiado pelo Instituto Pereira Passos (IPP), órgão vinculado a Prefeitura do Rio de Janeiro, a pesquisadora é doutora em antropologia cultural pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com mestrado em Sociologia e Antropologia também pela UFRJ. Leia mais na entrevista abaixo:

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Como se deu o seu encontro com o funk?
Meu encontro com o funk foi pautado com o seu aspecto estético, foi sempre o que me interessou. Enquanto outros pesquisadores chegam no funk muito pra entender o movimento como representação da sociedade, uma manifestação do social, como música, expressão da favela ou das classes populares, a minha questão com o funk sempre foi movida por um fascínio me causou, um fascínio estético. A gente tem até uma teoria antropológica da arte que fala muito disso, que define arte como aquilo que te captura, que te argola. O funk, pra mim, é exatamente isso.

Quando rolou esse fascínio?
Eu comecei ali no final dos anos 90, quando entra na moda uma calça jeans conhecida como a “Calça Gang“. Muitas meninas usavam e, inclusive, tinha algumas amigas minhas que usavam. Eu trabalhava no centro da cidade com moda e sempre tive uma entrada na coisa do design da moda e da criação. Comecei a ver essa calça circulando muito pela cidade. Era uma calça muito sensual, que deixava o corpo em evidência, tinha bordados, algumas com menos [adereços]. Tive a oportunidade de fazer uma pesquisa para uma universidade privada pensando a ressignificação dessa calça no discurso midiático. Quando encerrei essa pesquisa, eu fui fazer o mestrado em antropologia e o que eu queria era justamente entender essa calça nos seus usos. Nesse contexto original, a pesquisa apontou como contexto inicial da calça o baile funk, e eu fui pro baile pra ver essa calça usada pelas meninas.

Foi ali que eu fiquei realmente fascinada pelo universo estético funk. Eu não gosto de falar do social explicando o funk, eu gosto de pensar o funk como arte, quero falar do funk também como criatividade, como o artista funk tem um prazer e uma vontade de criar, que não necessariamente é explicada pelo social. Mas sem o social não conseguimos entender o funk

Quem era a Mylene antes de se aprofundar no funk?
Sou graduada em economia. Começo a trabalhar com moda em empresas, lojas pequenas. Não tinha nenhuma relação com funk. Na verdade, minha chegada no funk tem a ver com a minha chegada na antropologia, porque a antropologia tem como um dos seus nortes de que o encontro com a diferença pode ser um gatilho para produção de conhecimento. Nesse encontro com a diferença que você vai conseguir conhecimento. Ao mesmo tempo que tenho esse fascínio estético, o funk é precioso para pensar, do ponto de vista acadêmico, pois é muito interessante de um ponto de vista criativo, cognitivo, artístico, independente.

img_2389Mylene na Conferência Rio Parada Funk 2017 – Foto: Youssef Jabbour

É possível fazer um paralelo de vestimenta e estilo de dois grupos sociais?
Tem algo que é mais ou menos estrutural nisso, e a calça gang até ilustra essa ideia de uma estrutura do gosto, que era essa relação da roupa justa e a roupa menos justa. A brasileira, de um modo geral, é conhecida pelo mundo por gostar de roupa justa. Nesse mundo funk, minha roupa era larga, ao mesmo tempo que no mundo mais zona sul, a acusação era que elas [funkeiras] usavam roupas muito justas. Muitas vezes eu me usei como dispositivo de pesquisa, porque percebia que do mesmo jeito que tinha um fascínio por aquele mundo, eles tinham fascínio pelo mundo de onde eu vinha. Essas diferenças não são fundamentais, o funk circula, não existem diferenças absolutas e radicais. O funk se alimenta também do alto gosto.

Você acha que existe alguém que dite a moda no funk?
Cada vez menos essa coisa de ditar moda no mundo do consumo funciona, porque antigamente você tinha essa concepção de a [classe] alta ditando a moda e você imitar. Hoje tem o alto, os lados, muitos grupos de referência. A gente vê que a mesma Armani, que pode ditar a moda da classe média, está sendo usada na Palestina, pelo rei do camarote aqui no Brasil, pelo menino que canta ostentação e pelo jogador de futebol. Todos podem estar de Armani, é difícil dizer quem dita o que pra quem.

E os funkeiros gostam de se vestir bem, roupas legais….
Nessas horas vemos como a estética nos falam das tensões sociais. Na verdade, junto com isso, de se empoderar de símbolos da classe média, está associado você buscar uma circulação mais fluída pelos espaços da cidade, mostrar que você também pode, também consome. Esses movimentos de rolezinho são feitos junto com as marcas, só que essas coisas não são controladas e caem sobre eles um discurso moralizante sobre o consumo. Mas não tem uma classe média endividada também? Eu vejo essa ostentação para o que ela pode falar pra gente além do puro gasto.

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Como você vê a estética masculina no funk?
É muito curioso o momento quando faço a pesquisa, lá em 2005. Já tinha a calça, e eu ficava intrigada com o investimento estético dos rapazes. Não acho que é ser metrossexual, acho que eles têm um interesse pela aparência que não posso dizer que os homens de classe média não tenham. A questão da beleza masculina é corporal, acho que eles gostam do corpo. É selfie feita mostrando metade do corpo [na foto]. Isso é muito do funk, tanto no homem quanto a mulher. A ideia é você tentar mostrar uma naturalidade.

Na época, eles falavam muito que playboy não é necessariamente de fora da favela, você pode ter playboy na favela, mas eles falavam muito que “o playboy me vê com a roupa igual a dela, cordão igual o dele, e pensa: p*rra, que doideira”. É como se o playboy se visse na imagem do funkeiro, só que eles não podem imitar o funkeiro, porque eles têm o cabelo grande. Então eu via o cabelo como uma elaboração jocosa do cabelo do surfista, porque a roupa era a mesma, o cabelo era grande diferença do playboy pro funkeiro.

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E sobre o fenômeno das danças? Rolou alguma mudança?
Acho que tem uma mudança importante dos anos 2000. Essa questão da imagem, com a KondZilla como produtora de vídeo, o fato de você ter essa mídia digital e estar se apresentando para alguém e que alguém vai te ver. Isso muda muito, o funk passa de uma produção de áudio, para uma produção audiovisual. Isso é muito importante.

Como era a relação de uma pessoa da academia com os funkeiros?
No início eles não conseguiam entender: o que você está achando de tão fascinante nisso, na nossa vida, nosso cotidiano. Eles achavam graça. Lembro que eles achavam graça d’eu estar enfiada no estúdio com eles (risos). Eu me interessava por todos os detalhes, acho que eles tinham uma certa desconfiança nisso, depois eles foram entendendo. E enquanto eu produzia os meus artigos e alguém de lá, lia.

myleneFoto: Portal KondZilla

Como se deu o seu encontro com o Mr. Catra?
O que acontece é que eu estava no doutorado, estava tentando ver uma entrada e via muito o Mr.Catra fazer show pela cidade. Meu campo de estudo no mestrado foi no “Clube do Boqueirão”, que é perto do aeroporto Santos Dummont. Era um baile frequentado por jovens da Zona Sul e Zona Norte, em geral das favelas, e não tinha filiação a uma facção.

Pensando na circulação do funk pela cidade, acompanhei alguns jovens que conheci no baile, um grupo de amigos que moram próximo do centro e trabalham no mesmo lugar. Com eles, eu acompanhava a circulação deles pela cidade. Eu não podia pensar o funk só como produção de gueto, não dava muita conta. Foi então que uma pessoa me chama para escrever sobre religião e funk, e o artista que mais fazia esse discurso nos bailes era o Catra. Vou procurar o Catra – uma pessoa muito fascinante e querida -, e começo a caçar ele por entrada de show. Ele me passa um número, consigo marcar com ele na casa dele e fizemos uma entrevista.

Achei aquela conversa algo muito controlado, e aí que entra a coisa do antropólogo, que quer ver a coisa acontecendo, quer ver aquele mundo funcionando. E ele [Catra] se vira e fala: você não quer fazer umas saídas comigo? Fiz cinco saídas com o Catra de van pela cidade, começava às 8h e terminava às 20h. Começo então a ver essa circulação pela cidade, o MC faz show para periferia e para playboy, a cidade inteira articulada pelo funk numa noite, e eu queria entender qual era o lugar desse funk no Rio de Janeiro. E no meio do trabalho ele diz: pô, o que você está querendo tanto aqui? Eu conversei com ele, ele ficou tranquilo e eu pergunto se ele pode ser o centro da minha pesquisa e ele topa. A pesquisa não é sobre o Catra, mas com ele. Eu ficava dentro de estúdio, acompanhava muito o ambiente familiar e doméstico dele, fiquei muito próxima da esposa, da irmã, da filha mais velha. Foi algo bem intenso.

Acompanhe o trabalho da pesquisadora pelas redes: Facebook // Academia.edu
A tese da pesquisadora: A Estética Funk carioca: criação e conectividade em Mr. Catra – está disponível na internet.

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