Pioneiro na arte da MPC, DJ Tecyo Queiroz é relíquia do funk de SP

Matérias 27/04/2018

Foto: Arquivo Pessoal – Tecyo Queiroz // Jean Flanders (2017)

Original de uma época próxima e distante ao mesmo tempo, a arte do DJ de MPC parece que ficou pra história. Picotado em pontos e com um teclado de 16 pads (botões), fazer uma montagem ao vivo era pra poucos. Um deles – como dizem por aí, “relíquia do funk” – é o DJ e produtor Tecyo Queiroz. Hoje, aposentado do movimento paulistano, o produtor fez escola e escreveu seu nome no funk. Foram de suas mãos que saíram produções lembradas até hoje e também a iniciativa de ensinar uma nova geração a usar a MPC. Confira mais dessa história, na entrevista abaixo do DJ ao Portal KondZilla:

tecyo1Foto por: Arquivo Pessoal – Tecyo Queiroz // Jean Flanderes

Na conversa, Tecyo contou sobre sua trajetória e como era o movimento funk antes da virada da década. Se hoje a internet é inundada por fóruns, tutoriais e vídeos ensinando a galera a manusear equipamentos, há 10 anos, não era bem assim. E num ímpeto de promover o que sabia ao próxima, Queiroz fez uma escola sem saber disso. Até hoje, é lembrado por produtores do movimento e é grato por tudo isso “Saber que muitos DJs dessa nova geração se inspiraram em mim, não tem dinheiro nenhum que pague”. Confira a entrevista completa:

KONDZILLA.COM: COMO SURGIU O SEU INTERESSE PRA SER UM DJ?

DJ Tecyo Queiroz: Eu comecei a trabalhar como DJ por sempre gostar de música. Com 10 anos já tocava teclado, violão. Eu escutava programas de rádio onde o DJ mixava ao vivo e eu achava o máximo aquele negócio de uma música por cima da da próxima, quando via já tinha começado outra. Foi aí que comecei a me interessar, gostar disso, tentar me aprofundar nessa coisa de discotecagem. Nessa mesma época começou a surgir o funk em SP. Eu achava demais essa batida de funk e já fui migrar pra essa área: primeiro discotecando, depois descobrindo a MPC.

KDZ: SIM, MAS NESSA ÉPOCA NÃO EXISTIAM MUITOS DJS DE FUNK, MUITO MENOS INTERNET E ESSA ENXURRADA DE INFORMAÇÕES. COMO VOCÊ APRIMOROU A PRÁTICA?

Comecei na verdade em 2005. Já fazia uns bailes, festinhas, tinha uma equipe de som e a gente lovaca uns espaços e fazíamos uns bailes e eu tocava funk do RJ e tal. Meu contato com esse mundo era muito difícil, não tinha tanta facilidade com internet, não tinha computador em casa, era mais CDs comprados no camelô, só com a galera do RJ. Essa era a forma de tá atualizado. Ah, tinham as lan house também. Tinha um site (F2DJ) que tinha os primeiros vídeos dos DJs tocando MPC, pensava se um dia viria isso na minha frente.

KDZ: FOI DE LÁ QUE VOCÊ TEVE A IDEIA DE FAZER SEUS VÍDEOS PARA O YOUTUBE?

Não, não foi de onde eu tive a ideia. A ideia foi minha mesmo, porque quando comprei minha primeira MPC foi muito difícil pra configurar. Não tinha nada na internet, ninguém pra ensinar, eu nem sabia por onde começar. Tinha um pessoal que tirava sarro, pedia pra eu gravar tocando, porque não acreditavam que eu sabia mexer numa MPC. Lembro que quem me ajudou foi o DJ do MC K9, que me ensinou por MSN. Depois que configurei e tal, pensei: ‘pô, é muito difícil configurar e nenhum DJ se habilita a fazer isso’. Daí tive a ideia de pegar uma câmera bem ruim, escura, lâmpada ruim e fiz. Na época, o YouTube tinha um tempo limite, então fiz mais alguns vídeos. Eu fui tocado para ajudar o próximo, teve muito DJ falando que eu era otário, falando que ia ter vários DJs tocando só por minha causa, que eu não podia entregar o ouro.

KDZ: O NOME TECYO QUEIROZ É REFERÊNCIA QUANDO O ASSUNTO É DJ OU MPC EM SÃO PAULO. COMO VOCÊ SE SENTE COM ISSO?

É muito gratificante saber que eu ajudei muitas pessoas, e ajudo até hoje, porque tem muita gente que até hoje vai lá no meu canal e aprende. Vi uma entrevista que o Jorgin deu e me mencionou como referência quando ele começou, numa época em que não tinham muitos DJs. Saber que eu fui referência pro Jorgin, pro Perera… Aliás, olha como o mundo é pequeno: um dia fui chamar o Perera, pelo Facebook, pra parabenizá-lo pelo trabalho e ele disse que ficava mais tranquilo comigo falando aquilo. O cara tinha eu como inspiração e ficou grato por eu elogiar o trabalho dele. Saber que muitos DJs dessa nova geração se inspiraram em mim, não tem dinheiro nenhum que pague.

KDZ: PRA GALERA QUE TÁ CHEGANDO AGORA, VOCÊ PODERIA DAR UMA EXPLICAÇÃO RÁPIDA DO QUE É UMA MPC?

A MPC é uma controladora. Ela não foi feita para ser usada em baile para se tocar. O intuito da MPC era para criar beat, o pessoal lá de fora usa muito para produção, mas aí no Brasil os DJs cariocas tiveram a ideia de colocar os pontos e fazer um ao vivo no baile. Nós, brasileiros revolucionamos. Agora no mundo todo tem DJs fazendo live. No Brasil, a MPC ela é quase exclusiva do funk, mas também tem uma galera que faz trap arabmusic, ou seja, a MPC não é um equipamento para você segurar um baile inteiro, ele é um complemento. Pra um DJ tocar bem numa MPC, ele tem que ter um conhecimento de discotecagem, BPM, break, etc. Porque, se você não tiver conhecimento de discotecagem, tempo, você vai tocar fora de tempo, descompassado. MPC é importante, pra DJ que toca pra MC ela é a alma do show, o MC não vai cantar sem o beat, então a MPC é e a metade do show de um MC.

mpc_tecyoFoto por: Arquivo Pessoal – Tecyo Queiroz // Jean Flanderes

KDZ: TEM UMA GALERA QUE JÁ DEIXOU A MPC DE LADO PARA ABRAÇAR O TABLET. O QUE VOCÊ ACHA DESSA NOVIDADE?

Tablet não é um substituto, vejo como uma evolução porquê da mesma forma que até hoje preferem usar o vinil do que o CDJ, tem DJ que vai preferir o MPC. Tudo tem o seus prós e contra. Eu cheguei a usar tablet, deixei ele no lugar da MPC um tempo: é mais leve, mais prático, porém não é a mesma coisa, porque a MPC foi feita para aquilo, você sente tocando, tem os pads e tal. Igual quem toca no vinil, que tem a sensação do vinil da mão, colocar a agulha certinha. Então, não vejo como substituto, serve pra algumas ocasiões.

KDZ: VOCÊ QUE JÁ ESTEVE NESTES DOIS CAMPOS: EXISTEM DIFERENÇAS ENTRE SER DJ QUE TOCA EM BAILE E SER DJ QUE TOCA PARA UM MC?

DJ de baile não tem apenas que soltar música ou só discotecar. Ele tem que ter um carisma com o público, ele é a atração do público, tem que saber a música certa pra tocar no momento certo, tem que entender o público. O DJ de baile tem que fazer um show igual um MC faria, ou até melhor.

Sobre tocar pra MC, é bem diferente, ele vai ter que concentrar no show do MC, ele tem que saber o show do começo ao fim, mas saber improvisar na hora certa. Mas ele não tem as responsabilidades que um DJ de baile teria. Essa é a diferença. Mas, tudo tem que ser bem feito, com cuidado.

KDZ: PRA FINALIZAR, VOCÊ TEM ALGUM RECADO PARA DEIXAR PRA MOLECADA QUE TÁ COMEÇANDO?

Não desistir jamais do seu sonho, mas não focar apenas isso. Quer ser DJ? Legal, mas estude também. Tenha sempre um plano B, pois temos que ta preparado pro sucesso ou pro contrário. Sempre tenha um segundo plano, pois o funk e muito volátil. DJs estouram, sumiram, voltaram, e você tem que ter uma preparação para isso. Também por sempre Deus à frente de tudo, ser humilde, porém verdadeiro. Faça o maior número de amizades possíveis. Por que a fama vai embora, mas o respeito e o seu caráter ficarão pra sempre na memória de quem lhe conheceu um dia.

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