O protagonismo feminino por Eliane Dias

Matérias 08/03/2018

*Todas as fotos por: Ryck Rodrigues // Portal KondZilla

No Dia Internacional da Mulher, separamos histórias que inspiram outras mulheres a seguirem em frente. Esperamos que a história da Eliane Dias, mãe, advogada, coordenadora do programa SOS Racismo, que atua no combate ao preconceito, à discriminação e à intolerância racial e cultural, CEO da produtora Boogie Naipe, criada em 2014 e responsável pela carreira do grupo Racionais MCs, RZO, 5 pra 1 e do rapper Mano Brown, seja uma boa história. Em homenagem à data, o Portal KondZilla trocou uma ideia com Eliane sobre 1001 assuntos e todas as suas vertentes. Saca só!

Nosso encontro com Eliane aconteceu em sua sala, dentro da SOS Racismo localizada na Assembleia Legislativa de São Paulo. Os diversos prêmios e homenagens que se amontoam sobre o armário que fica de frente à sua mesa são uma prova do trabalho sério e dedicado que vem fazendo há tanto tempo. De início, perguntei como era a sensação de inspirar tantas pessoas, quando ela me responde: “Você acredita que não me sinto assim?!”.

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#”Sair desse estado confortável.”
Nascida e criada na Zona Sul de São Paulo, na região do Capão Redondo, Eliane começou a trabalhar com 12 anos. Foi a primeira pessoa da família a ter um diploma do Ensino Superior, concluindo o curso de Direito e, a partir daí, se tornou uma referência de sucesso no mundo dos negócios e do ativismo da mulher preta. Além deste currículo que já apresentamos lá no começo, ela também é mãe de dois filhos – Jorge e Domenica – e casada com Pedro Paulo Soares Pereira que, eu, você e boa parte do mundo conhece como Mano Brown, integrante do Racionais MCs. Mas para Dias conseguir tudo isso, não foi um mar de rosas.

“Para você dar uma volta de 360º na sua vida é um processo muito duro”, explica Eliane. “A família já está instituída, o ritmo está feito, o companheiro está lá, os filhos adolescentes estão lá. Aquela cultura periférica toda está feita e, pra sair dessa cultura é um trabalho muito grande. Eu, por exemplo, gostava de ser dona de casa, levava uma vida “normal” – até porque não tem como ter uma vida normal sendo casada com o Pedro Paulo – bem mais leve do que é hoje. Quando decidi que iria me tornar advogada [lá em meados dos anos 2000], decidi dar esse 360º. Eu percebi que casamento não é uma aposentadoria. Se hoje eu tivesse que fazer tudo o que fiz naquela época, não sei se conseguiria. É algo realmente muito duro”.

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#A produtora e advogada
Durante a entrevista ficou claro e evidente que o trampo e a vida da Eliane é uma correria. Seu telefone sobre a mesa estava inquieto (ela nem tanto, parecia estar acostumada com a situação). Sua agenda entre a semana passada e a próxima semana estava completamente lotada. Boa parte da sua atenção é dedicada a Boogie Naipe, produtora que cuida de diversos artistas, entre eles o Racionais MCs, que dispensa maiores apresentações.

“Nessa área eu ainda tô aprendendo, faço muita coisa errada e aprendo com meus acertos e erros. Errei bem menos do que acertei, isso eu reconheço, mas eu gostaria que errasse menos ainda. Minha meta é errar 0%, voltei pra academia para entender esse cenário [musical], não dá pra ser amadora”, explica.

“Sobre o trabalho na Boogie Naipe?! (suspiro longo) É um verdadeiro parto, eu tenho um filho todo dia (risos). Eles [Racionais MCs] são muito grandes, eu não tinha a noção disso tudo. Então, tudo que vai fazer pra eles eu tenho que pensar umas 10 vezes. E tudo que eles fazem move muitas pessoas, eles influenciam muita gente. Quando uma pessoa pede autorização para usar um trecho de uma música deles num livro, eu tenho que pensar 50 vezes, porque o livro pode ser algo que não condiz com a postura do grupo. Só agora, eu tô com umas 10 solicitações para usar músicas do Racionais em filmes! Tenho que analisar muito bem tudo. Hoje temos novos projetos, algumas novidades como o ‘Boogie em Brasa’, um programa de rádio (atualmente na programação da Rádio Brasil Atual) que recebe convidados variados. Chamo isso de ‘Boogie Experience’. Vamos ver se vai dar certo”.

#Inspirações
Quem inspira uma mulher inspiradora? Eliane não teve de pensar muito para soltar um nome: Carolina Maria de Jesus. A escritora, que viveu boa parte da sua vida na Favela do Canindé, em São Paulo, é uma das referências literárias brasileiras.

“Foi o livro ‘Quarto de Despejo‘ que me fez escolher ser advogada. A Carolina de Jesus é uma inspiração. O jeito dela ver as coisas, o jeito dela falar que a gente está num quarto de despejo é incrível. A periferia ainda hoje é um quarto de despejo. Hoje, eu faço esse exercício de sair da casa de despejo e vir para casa grande, literalmente. É daqui [Assembleia Legislativa] que sai todos os projetos, as leis. Se você anda na rua à direita, sai uma lei daqui. Se você anda na rua à esquerda, sai uma lei daqui. Tudo sai daqui. Hoje eu estou super encantada com a Oprah, que tá lá num movimento feminista maravilhoso, uma liderança incrível. Fez tudo o que tinha que fazer, tá suave e tranquilo, agora vai sair candidata! Quem sabe, quando eu for uma Oprah, eu também não saia candidata. Por enquanto, eu ainda tenho alguns afazeres [risos]”.

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#A militante
Eliane vê com bons olhos as mulheres jovens da periferia lutando pelos seus direitos, levantando bandeiras e sendo protagonistas. Se tem uma palavra no dicionário que pode resumir tudo que acontece hoje com essa mulherada periférica é o protagonismo.

“Eu vejo as mulheres jovens bem evoluídas, pautando o que elas querem e, quando elas não sabem, elas ficam inquietas, buscando. Às vezes elas não sabem o que querem, mas elas sabem que aquilo que está sendo oferecido elas não querem. Eu vejo essas mulheres mais jovens donas do seu próprio eu”, diz.

Além de protagonismo, outra palavra que está em pauta é empoderamento. A enxurrada de informação que consumimos hoje faz com que tenhamos conhecimento de coisas e pessoas que, por diversos motivos – entre eles ignorância e machismo – passavam despercebidas.

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“Conhecemos Zumbi dos Palmares, [enquanto] Dandara [sua esposa] ganhou destaque de um ano pra cá. As mulheres estão ganhando [empoderamento] a duras penas e pagando um preço alto, mas vale a pena. Eu pago um preço muito alto pra ser quem eu sou. Nem em sonho eu gostaria de ser a mulher que eu era há 10 anos. Eu prefiro hoje, com o preço alto que eu pago, de ter que trabalhar, estudar, cuidar dos filhos, cuidar da casa, tenho uma geladeira que me enche o saco (risos)”.

“Acho uma pena que muitas companheiras não tenham forças financeiras ou físicas para recomeçarem suas vidas, serem independentes. É uma coisa triste. O botijão de gás subiu e a ajuda do gás foi cortada para algumas famílias. Pode parecer besteira, mas ter o dinheiro do gás é um empoderamento para ela, que chega a aturar um cara bêbado e louco só porque ele compra o gás. Então conseguir esse dinheiro é um empoderamento. Por essas e outras, programas como o Bolsa Família, por exemplo, são tão importantes. Eles ajudam milhares de famílias, não deixando de ser uma forma de empoderamento”.

Puro prazer. #fihos #mue

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#A mãe
Lógico que ainda há muito caminho para ser percorrido, mas avanços já aconteceram. E, mesmo com todo o avanço da sociedade e as mudanças que o tempo força, ela faz questão de destacar a importância da mãe na estrutura familiar.

“A base de tudo vem de casa e, a base da casa, independente da classe social, é feminina. É sempre uma mulher que está lá direcionando, comandando, ditando o horário, o que come, o que veste e parece que a sociedade não dá importância pra isso. A mulher é quem escolhe o que vai comer dentro de uma casa! Então, diretamente ou indiretamente, ela tá determinando qual vai ser o ritmo da alimentação, da saúde, da pele, dente, cabelo, etc”.

“Todo o ritmo que uma casa tem é direcionado por uma mulher. Se você deixar uma casa para ser direcionada por um homem, o ritmo seria meio louco. Hoje temos poucos homens nesse cenário, tentando se adequar, mas eu acho que não estão preparados e precisam ser auxiliados pelas mulheres”.

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#Desejo
À todo o momento, nossa conversa girava em torno do tópico mãe. Assim como Carolina de Jesus – uma de suas inspirações -, em “O Quarto de Despejo”, Eliane ama e sofre com seus filhos, sabendo da importância e das dificuldades de ser mãe e periférica. Com os olhos marejados e a voz quase que embargada pela realidade cruel, ela reforça as dificuldades que muitas mães enfrentam e revela dois pedidos que faria à Deus.

“Eu acho que todas as mulheres têm que ser dona do seu próprio nariz. O que eu quero para todas as mulheres é que elas tenham discernimento das suas escolhas e sejam donas delas. A gente prepara uma pessoa pra sociedade, o que a gente faz é o mais difícil. Quero que as mulheres tomem as rédeas das suas vidas e pensem com cuidado em cada atitude que tomarem. E o meu maior desejo é que nenhuma mãe enterre seu filho. É hipotético né?!”.

“Se hoje Deus chegasse pra mim e falasse que eu tenho direito à duas escolhas: você pode continuar vivendo ou nenhuma mãe vai enterrar seu filho, eu escolheria a segunda opção. Porque TODOS OS DIAS eu vejo um enterro na periferia e eu vejo uma mãe chorando. Isso é sofrido pra mim, eu não aguento mais isso. Todo lugar que eu ando eu lembro que morreu uma pessoa, é claro que a esmagadora maioria dessas pessoas mortas são jovens negros, com mães abandonadas, seus lares destruídos e elas tentando tirar do útero novamente a resiliência para pegar essa coisa ruim que foi colocada na vida delas e transformar isso em outra coisa, algo bom, justo”.

“Aniversário da minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos”, assim começa o livro “Quarto de Despejo”, mostrando o quanto uma mãe sofre e sonha com seu filho. Eliane também. Ela faz questão de se destacar como mãe – e protagonista – acima de tudo. Mesmo com uma vida atribulada, todas as conquistas e todas as batalhas do cotidiano, a batalha de criar um outro ser humano pro mundo é o que dá forças para toda a guerra.

Acompanhe o trabalho da Eliane Dias pelas redes sociais: Instagram

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