Saiba como foi o 1ª dia da Conferência do Rio Parada Funk 2017

Matérias 3 semanas atrás

*Todas as fotos por: Youssef Jabbour

Aconteceu no dia 31 de agosto, o primeiro dia de conferências da sétima edição do Rio Parada Funk no MAR – Museu de Arte do Rio. O evento é organizado pelo coletivo Eu Amo Baile Funk e já entrou no calendário oficial do Rio de Janeiro. As conferências têm o intuito de debater os principais temas do movimento carioca. Neste ano, foram dois dias de conferências, sendo o primeiro voltado aos temas: “150: A BATALHA DO BPM” e “FUNKEIRXS, o mundo funk por elxs”. O Portal KondZilla esteve presente para acompanhar esse importante debate carioca. Confira como foi:

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Em cada dia da conferência, haviam três temas: dois debates e um terceiro apresentando alguns aspectos da cultura. No 1º dia, a equipe de barbeiros Batalha dos Barbeiros Brasil estava presente para mostrar e fazer o corte peculiar das comunidades para quem se interessasse. Além disso, havia uma incrível arte do Projeto Morrinho, com diversas favelas na entrada do MAR. Este foi outro fator a se observar, a entrada da cultura musical do funk carioca em um museu, tanto para se discutir como também para apresentar seus aspectos.

Marcado para começar às 16 horas, o 1º debate tinha um tom polêmico por falar da novidade dos 150BPM. A mesa era formado pelos seguintes profissionais: DJ Byano (DJ residente do Baile da Chatuba), DJ Batutinha (Produtor Musical), DJ Polyvox (DJ e produtor adepto do 150 bpm), DJ Cabide (DJ campeão da Batalha do MPC), DJ Rennan da Penha (DJ residente do Baile da Gaiola) e Denis Novaes (Pesquisador do Funk Carioca).

Caso você ainda não saiba do que se trata, o Portal KondZilla já falou por duas vezes sobre o tema. A primeira explicando o que está acontecendo, e uma segunda entrevista com o Rennan da Penha. Em vias gerais o assunto é o seguinte: uma nova geração de produtores acelerou o tradicional ritmo carioca dos 130 BPM para os 150BPM, o que gerou alguns atritos entre os produtores. A confusão acontece entre uma ‘velha guarda’, puxados por DJ Cabide e DJ Byano, com a nova geração, puxados por Rennan da Penha e Polyvox. Alguns citam que acelerar tanto estragou a batida do tamborzão e deixa a música muito rápida para cantar e dançar, já a galera dos 150BPM argumenta que produz tudo em 150 e que o movimento tem espaço pra todo mundo. A novidade não é para ser uma via de regra, e sim algo para somar, uma opção de produção assim como melody é.

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Com esse tema, era provável que o debate fosse acalorado, porém, para surpresa de todos, os principais personagens da confusão não estiveram presentes. Apenas o DJ Cabide apareceu, perto das 18h30, apressado e com um discurso previamente escrito. A conferência começou as 17h e se prolongou até as 19h, com todos aguardando pelos convidados – a turma dos 150 – que não deram as caras. Durante o debate, DJ Batutinha (que está no funk há mais de 20 anos) deixou claro que “o importante é a música fazer dançar. O 150 é apenas um número”. Outra citação importante do produtor foi que “o funk é exatamente o novo. E a intolerância não faz parte do movimento, o funk é o contrário disso”, explicando que nunca houve uma regra para produzir a música. E encerrou o debate com a seguinte frase: “o funk não é um beat, o funk é um comportamento”, deixando claro que o fator técnico não é importante para determinar a música.

O pesquisador Dennis Novaes citou diversas influências em que o ritmo carioca recebe e também o quanto o ritmo influencia outros movimentos, e que a música está em constante mutação. Novaes aproveitou para citar um pensamento: “O funk não é um único ritmo, o funk não tem uma única temática, o funk não está em um só lugar. O funk é um gênero”, e por conta disso recebe diversas adaptações pelas regiões e pessoas que o produzem.

Sem a presença dos principais personagens do 150BPM, o debate serviu para reforçar a importância da nova geração – que levantou questionamentos e fez muita gente se mexer da zona de conforto. Se vai pegar ou não, é difícil para qualquer um dizer, mas é importante perceber o quanto o movimento está agitando a cena carioca.

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O tema da segunda parte do debate era sobre “FUNKEIRXS, o mundo funk por elxs” e teve presença das seguintes convidadas: DJ Iasmin Turbininha (Dj revelação 2017, sucesso no Youtube), Renata Prado (Dançarina, pesquisadora, apresentadora, produtora da festa Batekoo e Diretora da Frente Nacional de Mulheres no Funk), Mariana Wender (Mestranda do trabalho My Pussy é o Poder) e da DJ Ingrid Nepomuceno (integrante do coletivo Raxa).

É importante ressaltar o papel da mulher no funk. O Rio de Janeiro teve uma época de ouro para as mulheres no movimento, na virada dos anos 2000, quando MC’s como Deize Tigrona, Tati Quebra-Barraco, Valeska Popozuda e outras MC’s surgiram com letras sobre as vontades das mulheres, mudando com o padrão masculino. De lá pra cá, a presença delas se manteve firme no funk carioca, caso por exemplo da MC Carol, mesmo que com problemas nos quais o debate levantou continuem existindo.

Um deles ainda é o fato de figuras masculinas que surgem no trampo das garotas com intenções além das profissionais, como a MC Bella já relatou nessa entrevista. Outro ponto levantado pelo debate é a ausência constante de mulheres em debates sobre o funk, citando que na mesa anterior, dos 150BPM, não havia nenhuma mulher. Mesmo que a DJ Iasmin Turbininha seja a principal divulgadora do movimento, ela apareceu apenas no debate das mulheres.

Segundo a visão das palestrantes, querendo ou não, o movimento ainda enfrenta muitos problemas sexistas. Mas elas estão prontas para mudar isso e estão cada vez mais presentes no movimento. A palestrante Renata Prado comentou do trabalho que tem feito na festa Batekoo – voltada a ritmos africanos e periféricos -, que ajuda a promover sons da periferia, a negritude e também reforça o poder da mulher, já que Renata trabalha na linha de frente da festa. A produtora também é dançarina e professora, e durante o debate ressaltou a importância da educação para as pessoas e também o papel da dança – que ainda hoje recebe muitas críticas sobre os corpos (seja do dançarino ou da dançarina).

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Enquanto cada palestrante citava um problema da sua área, a pesquisadora Mariana Wender se voltou ao tema dos estudos, comentando sobres os problemas que a academia sofre para conseguir produzir trabalhos e se manter com as bolsas auxílios. Trabalhando em um doutorado sobre funk, a pesquisadora é enfática ao lembrar diversas situações que sofreu preconceito por ser mulher e por trabalhar com funk – o que foi um consenso na mesa entre as palestrantes.

O segundo debate teve que encerrar às 20 horas, horário determinado pelo museu. Foi interessante observar o número de mulheres presentes no local para reforçar a força do movimento feminino no funk. Com um fluxo de quase 100 pessoas durante a palestra, o 1º dia de conferência estava encerrado. Amanhã falaremos do 2º dia que trouxe mais polêmica para a mesa de discussões.

Confira como foi a conferência pelas fotos abaixo:

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