Tudo sobre o Observatório do Funk, em BH

Matérias 29/06/2018

Foto: Reprodução // Instagram

Desde os bailes black e do consciente nos anos 1980 até o cavaco do Delano, Belo Horizonte é uma parte importante da história funk. Nos últimos anos, além de inovações musicais influentes, os mineiros também fortaleceram o movimento com debates políticos e sociais. Um desses expoentes é o Observatório do Funk, coletivo político cultural que nasceu há um ano, formado por advogados populares, jornalistas e produtores culturais do Aglomerado da Serra — um dos maiores conjuntos de favelas da América Latina, composto por seis vilas com cerca de 80 mil habitantes. Tive o prazer de ser convidado para o evento roda de conversa “Mídia, Funk e Favela” e conto aqui, no Portal KondZilla, como anda os trem de Minas.

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No último sábado, o Observatório realizou o debate “Mídia, Funk e Favela”. Participei ao lado de Gabi Coelho, do jornal carioca Voz da Comunidade. Quando fiz a série de matérias sobre a história do funk mineiro, descobri muitas histórias importantes que foram estavam esquecidas. Aprendi que Belo Horizonte, assim como no Rio de Janeiro, também teve um movimento de bailes black. Conheci também o álbum coletivo “Fábrica Ritmos” (1992), produzido pelos DJs Joseph, DJ A Coisa e Marcelo (do grupo União Rap Funk), que deixa clara a relação embrionária entre o funk e música eletrônica afro-americana. Percebi como a mídia, ainda muito formada pela elite cultural, é míope para as culturas periféricas. E, aos poucos, estes músicos, obras e movimentos artísticos vão sendo apagados da história da música brasileira. A cultura periférica é condicionada ao esquecimento.

Desde o surgimento do Observatório do Funk, eles têm dialogado diretamente com a Polícia Militar e a Secretaria de Cultura da cidade, buscando melhores formas para realização do Baile da Serra. Além disso, o coletivo promove atividades como a Incubadora do Funk, que realiza oficinas e debates sobre o funk. “Muita gente passou a pedir pra tocar no Baile da Serra. Nós não pagamos cache. Pra ninguém. Até hoje. Galera pede pra tocar de graça. Era tanta gente pedindo que passamos a entender que precisávamos de uma escola de funk. Assim surgiu a Incubadora”, diz Maíra Neiva Gomes, uma das organizadoras do Observatório.

Também foi levantada a questão da criminalização dos negros e moradores de favela. É o caso da morte do estudante Marcos Vinícius, de 14 anos, na favela da Maré, no Rio de Janeiro, mais uma vítima criminalizada.

A conversa serviu para apontar e discutir em grupo sobre essas questões mais amplas, mas também foi um ótimo momento para ouvir. A Emily Roots, cantora iniciante, reclamou da invisibilidade dos MCs LBGTs e a dificuldade de se apresentar nos espaços do funk e do rap, por exemplo.

Felizmente a internet tem impulsionado os encontros e as trocas entre as culturas periféricas do Brasil. Eu, em Recife, estudei as raízes do movimento carioca e seus desdobramentos. Em cada região, o funk adquire uma particularidade, um sabor diferente: o bregafunk de Pernambuco, o beat fino do Espírito Santo, a atabacada do Rio, o pagodão de Salvador, o minimalismo de BH. E tudo isso vai se conectando, instigando a criação de novos sons.

Ao fim das quase três horas de debate com um monte de pessoas interessada no funk e na periferia (artistas, pesquisadores, fãs), a sensação é de que o funk se fortalece. Belo Horizonte já tem MCs de grande porte, como Rick, Kaio e L da Vinte. Mas esse trabalho de formação aponta para o futuro promissor.

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