A saúde mental dos artistas de periferia

Saúde 4 semanas atrás

Já mostramos aqui no Portal KondZilla a importância de cuidarmos da saúde mental e como ela pode afetar a todos, inclusive artistas. Desta vez, separamos algumas histórias de pessoas envolvidas no mundo da música e no funk que enfrentaram problemas de depressão durante suas carreiras e também conversamos com especialistas sobre como os problemas na mente impactam no corpo também. Saca só:

Em 2008, Deize Tigrona vivia o ápice da sua carreira. Aos 29 anos, ela tinha subido ao palco do Rock In Rio Lisboa e levado o pancadão para Alemanha, Suíça, Dinamarca e Suécia. Foi em meio ao sucesso que ela tomou um baque. Ao descobrir que sua irmã, dependente química, abandonaria o filho recém-nascido, Deize entrou em curto circuito. Após lutar na Justiça pela guarda do sobrinho, a cantora da Cidade de Deus entrou em depressão, ficando seis anos afastada dos palcos.


A cantora Deise Tigrona – Foto: Reprodução // Facebook

“Eu tinha uma turnê imensa na Europa, tinha conseguido um visto pro Canadá, tava tudo indo de vento em popa quando tomei essa porrada. Perdi meu rumo, perdi meu chão”, relembra Deize, que passou a trabalhar como gari e voltou a cantar há dois anos. “No momento eu não tinha sentido que aquilo atrapalharia minha vida e nem mesmo vi como depressão. Foi uma sobrecarga. E com o tempo eu fui percebendo que minha mente não tava aguentando, até que eu fui parar no hospital e depois de fazer uma bateria de exames o médico falou que eu tava com depressão”.

A história de Deize Tigrona não é um caso isolado. A depressão e outros tipos de transtornos mentais são mais comuns do que imaginamos no mundo do funk. “É o gênero musical mais alegre do Brasil e é também o que mais fabrica pessoas depressivas”, resume o compositor carioca Praga, que teve tendências suicidas após a morte de sua primeira esposa por câncer, em 2015, e conviveu com MCs que passaram por depressão.

Autor de clássicos como “Vida Bandida”, interpretada pela MC Smith, ele acredita que existem duas causas principais para o ambiente do funk ser tão propício a este tipo de transtorno: a velocidade do sucesso e o convívio com a violência nas periferias.

“Somos de um estilo musical que lida diretamente com a periferia, então é preciso ter um equilíbrio muito grande para poder conseguir lidar com essa ascensão e com uma possível queda. É tudo muito rápido. Nem todo mundo consegue assimilar isso com facilidade. Às vezes o cara trabalha ali num emprego comum e de repente ele tá ganhando o Brasil. E depois, daqui a dois meses ele não é mais o cara do momento”, comenta Praga, relembrando o caso do MC Goró, da dupla Márcio e Goró, que se suicidou em 2000 após um súbito declínio na carreira.


O compositor Praga – Foto: Vincent Rosenblatt // vincentrosenblatt.photoshelter.com

Para o compositor, a violência é um fator determinante por abalar a autoestima e por tornar vulnerável a vida de morador de favela. “Se você convive com a insegurança, com o medo de você tomar uma bala perdida a qualquer momento ou de se deparar com uma guerra entre traficantes e milícia, polícia ou exército, não tem como você não ficar deprimido porque você percebe que pode perder o teu bem maior, que é a vida, numa guerra que não é sua. Você passa a ser um refém psicológico da violência”, avalia.

Psicanalista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Fábio Belo explica que a exposição à violência pode desenvolver ainda outros tipos de transtornos, além da depressão. “Não há nenhum tipo de dúvida de que populações de risco não só podem desenvolver depressão como também o que chamamos de síndrome do stress pós-traumático. Na verdade a gente poderia até começar a falar de um traumatismo permanente, em especial entre a população negra, pobre e marginalizada, que vive em constante ataque, em constante violência. Isso exige um monte de defesas específicas que deixam o sujeito esgotado”, indica.

Uma pesquisa realizada em 2008 pelo Ibope sob encomenda da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata) demonstrou a relevância dos fatores sociais atrelados aos transtornos psíquicos. De acordo com o levantamento, as classes C e D são as mais vulneráveis à depressão – foram identificados sintomas depressivos em 25% das pessoas dessas camadas sociais, contra 15% das classes A e B.


O psicanalista Fábio Belo – Foto: Reprodução // YouTube

Fábio Belo reitera que a depressão é causada tanto por motivos individuais quanto por coletivos e sociais. Portanto, fatores como classe social, raça e gênero também são importantes.

“Temos trabalhado com fatores externos associados à desigualdade econômica e com a hipótese de que quanto mais a gente se afasta do modo de vida proposto como ideal na nossa sociedade — isto é, um modo de vida em que a gente tenha comida, tenha casa, condições de dar segurança pros filhos —, maior é a chance da gente ter depressão”, detalha Fábio. “Nesse sentido, as classes mais desfavorecidas são também as classes que mais adoecem do ponto de vista do sofrimento psíquico”.

#Depressão não é frescura

Em 2017, a Organização Mundial de Saúde publicou dados que mostravam o crescimento da depressão no mundo. De acordo com o estudo, a doença afeta 322 milhões de pessoas no planeta. O Brasil tem 5,8% da população diagnosticada com depressão, sendo maior índice da América Latina e o segundo das Américas, atrás somente dos Estados Unidos, que têm 5,9% de depressivos. Apesar do crescimento da doença e de campanhas de conscientização como o Setembro Amarelo, a depressão ainda é um tabu. Na periferia, esse quadro se agrava.

“No meio do funk e na periferia em geral, a depressão é uma doença que muita gente não trata como doença mesmo. As pessoas acham que é frescura, que a pessoa simplesmente tem que esquecer e trabalhar”, afirma Praga.

“É um tabu das comunidades”, confirma Deize. “Pobre não pode ter depressão porque a gente tá sempre na correria, só que as pessoas têm que entender que a depressão é complicada, é lenta e ela te transforma por dentro”.

Ainda de acordo com os dados da OMS, são poucas as pessoas que buscam tratamento médico (menos de 10% dos casos). Nas favelas, os centros religiosos acabam tomando o papel do médico. “A gente costuma brincar aqui que psicólogo de pobre é o pastor, é a igreja”, comenta Praga, relembrando o caso de Tonzão, do grupo Os Hawaianos, que virou pastor e passou a cantar funk gospel. “Na periferia em geral, eu vi muita gente recorrer à igreja ou outras denominações religiosas e espirituais. Nunca ouvi uma história de um funkeiro que foi atrás de um psicólogo”.


Tonzão, ex grupo Os Hawaianos – Foto: Reprodução // Facebook

No entanto, o tratamento clínico com psicólogo ou psiquiatra são fundamentais. E ao contrário do senso comum, é possível encontrar este atendimento gratuitamente na rede pública de saúde ou em faculdades dessa especialidade. Segundo o Ministério da Saúde, todos os municípios com mais de 15 mil habitantes precisam oferecer esse tipo de atendimento nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) — veja aqui a lista de unidades do Caps em São Paulo. Muitas universidades também possuem clínicas-escolas que disponibilizam tratamento gratuito. Ainda é possível encontrar atendimento em redes de saúde municipais, como o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).

Deize admite que o primeiro passo no combate a doença é se abrir e procurar auxílio. “Muita gente realmente tem vergonha de dizer, de falar que está sofrendo depressão. Aí guarda aquilo, se fecha e se apega a droga, se apega às coisas erradas e pensa que tá indo pra frente quando na verdade tá se afundando mais. Acho que o primeiro passo é buscar conversar com um psicólogo, se apegar à família e aos amigos mais próximos”.

E como uma pessoa pode reconhecer que seu parente ou amigo está deprimido? “É importante reconhecer os sinais mais ou menos do senso comum, que são bem típicos”, diz Fábio Belo. “Ver se a pessoa não está estabelecendo contato social como de costume, se ela deixa de sair ou de se divertir. A tristeza ainda é diferente da depressão, nem sempre o deprimido vai manifestar isso. Mas ainda aparece com muita frequência. Então se ele aparece triste, se chora sem motivo, se dá sinais de uma tristeza sem razão, se ele não consegue localizar o motivo da tristeza são sinais”.

E o que fazer nessa situação? Como proceder? “Na impossibilidade de encaminhar para as redes de saúde do município (que sempre devem ser buscados) é importante estar ali do lado, conversar sem ter pressa de resolver nada, sem exigir desse sujeito que já está em sofrimento que ele responda de uma maneira muito rápida, que ele reaja muito rápido”, orienta Fábio. “É importante acolher. Ser uma presença sensível ao sofrimento, se disponibilizar a ouvir um pouco, mas sempre que possível encaminhar para as psicoterapias”.

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