Conversamos com uma psicóloga sobre saúde mental

Saúde 24/09/2018

O mês de setembro é conhecido como Setembro Amarelo pela prevenção ao suicídio e debate sobre questões de saúde mental. Recentemente, o Portal KondZilla falou sobre a importância da data, seu surgimento e como ela acontece pelo mundo. Desta vez, trocamos uma ideia com a psicóloga Elânia Francisca sobre a importância da gente cuidar da nossa saúde mental também. Confira:

Elânia Francisca é psicóloga clínica, especialista em gênero e sexualidade. Ela trabalha no Centro de Cidadania LGBTI, órgão vinculado à Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, principalmente com homens, mulheres, transexuais e travestis, a população que mais tenta suicídio no Brasil.

No papo com o Portal KondZilla, Elânia reforçou a importância de procurarmos um profissional adequado para cuidarmos da nossa saúde mental, pois todos podemos sofrer problemas, além de abordar como os jovens e seus pais lidam com essas questões. “Ser rebelde” nem sempre é uma fase de adolescente.

KondZilla.com: Oi Elânia! Me fala um pouco como é o seu trabalho.

Elânia: Eu trabalho no atendimento a população periférica. Na verdade, sou da periferia também e atendo essa população, em especial meninas negras periféricas. [A sociedade] tem o estigma do adolescente como rebelde, sempre a sociedade enxerga ele como quem atrapalha a ordem social, mas, na verdade, ele questiona essa ordem com atitudes, com o corpo.


A psicóloga Elânia Francisca – Foto: Arquivo Pessoal

O funk é um desses instrumentos de questionamento do jeito que a sociedade funciona. Os adolescentes produzem reflexões e isso causa um certo preconceito também. Na psicologia, há uma dificuldade com os adolescentes e adultos, muitos adolescentes me procuram e pedem pro pai ou mãe não saber, só que tem uma questão ética nisso. Uma das minhas missões é fazer com que o adolescente se sinta a vontade pra falar.

KDZ: Existe um “sintoma” para detectar algum problema de saúde mental?

Elânia: Em algum momento da vida a gente vai ter a saúde mental mais fragilizada, todo mundo vai sofrer. Mas alguns de nós, diante de algum sofrimento, não temos a rede afetiva, que nada mais é que um grupo disposto a escutar e acolher. Muitas vezes a solidão enfrentada por esses meninos e meninas, no que diz respeito a famílias, amigos, redes de saúde, é muito grande. Então, essa pessoa sente mais. Aliás, escutar sem julgamento é muito importante, pois muitas vezes o adolescente quer saber de algo que o adulto não está disposto a escutar ou ensinar, isso faz com que os meninos e meninas se entristeçam. Pra finalizar, quero apontar que pertencer e estar em um grupo fortalece a saúde mental, já o contrário, ser rejeitado, gera uma fragilidade.

KDZ: Ah sim, mas ainda tem muita gente que vê a depressão como frescura ou que é um problema passageiro. Como fazer nessa situação?

Elânia: Na nossa sociedade, a gente é acostumado a lidar com o que conseguimos ver. Se a pessoa está com a perna quebrada, eu consigo ver, tem o gesso, a tala, algo tangível. A depressão, as questões de saúde mental, não são fraturas expostas, são adoecimentos subjetivos, é como se fosse o ar. Às vezes, o sofrimento é visto como frescura. Se criou algo que é coisa da adolescência ficar rebelde, nervoso… Têm coisas que são fase mesmo, e têm coisas que não, que é do humano.

O suicídio traz consigo duas pergunta: ‘pra que estar vivo?’ e ‘pra que viver no mundo’? Isso não é frescura. O racismo é algo importante e um exemplo de como a sociedade tem que ficar atenta, porque faz com que meninos e meninas se sintam isolados. O racismo faz com que eles tenham em mente que aquele sofrimento não é real, que isso é ‘mimimi’ e que não precisa procurar ajuda para questões de saúde mental. Mas, se não fosse importante, não existiria uma data para lembrar, certo?!

KDZ: Todo mundo que tem depressão, também tem pensamentos suicidas ou tentam suicídio?

Elânia: Tem pessoas que têm depressão e não tentam suicídio, e têm pessoas que tentam suicídio por n motivos: por terminar um relacionamento, não conseguir um emprego ou qualquer outra coisa. Nem todo mundo que tem depressão tenta suicídio e vice-e-versa. Uma coisa não necessariamente leva a outra.

KDZ: Você poderia falar um pouco do seu trabalho com o público LGBT?

Elânia: Eu trabalho com os LGBTs em geral. Minha função é mais de escutar essa população, principalmente trans – homens e mulheres. Pensando que o Brasil é o país onde mais se mata essa população, isso por si só já gera um sofrimento, de pensar se vai estar vivo amanhã. Outra coisa é a transfobia, quando você não é respeitado por existir e daí pensa que não existir é a solução. Eu trabalho fazendo escuta individual e em grupo, atividades educativas, eventos aberto etc. Trabalha num núcleo com uma pedagoga e uma advogada, onde tentamos minimizar a transfobia que esse pessoal vive, os fortalecendo mentalmente.

KDZ: Como o Estado ajuda nesse atendimento de saúde mental?

Elânia: Os postos de saúde têm uma equipe do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) e Estratégia Saúde da Família (ESF). Aqui em São Paulo, esses equipamentos públicos tem uma equipe formada por profissionais que podem acolher as pessoas com ideias suicidas. Pra quem já tentou [o suicídio] a indicação é procurar o CAPS. Tem também a questão de você chegar em casa e ver que a pessoa tentou suicídio, a primeira coisa é chamar o SAMU e ir pro Pronto Socorro, sempre prestando atenção no atendimento, que muitas vezes, infelizmente, é relapso. As pessoas que têm qualquer sofrimento podem procurar os mesmos serviços, elas têm que receber um tratamento humanizado dentro do SUS. A política do SUS prevê que as pessoas têm direito a saúde – e esse atendimento humanizado está incluso.

KDZ: Elânia, muito obrigado pelo papo! Tem algum assunto que você ainda queira destacar?

Elânia: Acho que é importante falar da prevenção. Dois assuntos que não falamos e tem muita gente que se ferra bastante porque não falar são: sexualidade e suicídio. Quando não falamos de suicídio, não conseguimos prevenir. É importante a gente pensar em formas de se fortalecer para não lidarmos com o sofrimento dessa maneira, de pensar em alternativas pra estar vivo, para que as pessoas não pensem mais em suicídio, para que isso não seja uma forma de resolver problemas. Parece clichê, mas prevenir é sim o melhor remédio.

Se você tem um amigo ou familiar que esteja passando por uma situação complicada, ofereça aquele ombro amigo. O SUS oferece um serviço especial para essa questão e você também pode procurar dicas junto ao Centro de Valorização da Vida via telefone (188), e-mail, chat on-line ou via Skype. Nunca é demais reforçar que saúde mental é coisa séria e precisa de atenção.

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