GPS sem bateria

Matérias 4 semanas atrás

*O Portal KondZilla convidou o escritor Leandro Marçal para retratar, através de um crônica, um pouco do momento político do país.

Pensei em ligar para Catarina e jogar conversa fora. Nos últimos tempos, tenho sentido mais vontade de dialogar que o normal. Nem todo mundo quer ouvir, me parece. Olhei sua foto de perfil, refleti. Desisti de discar seu número quando revivi mentalmente nossos últimos dias juntos.

Tudo começou a terminar na tradicional viagem de férias, quando o grupo de 10 ou 12 amigos aluga uma casa grande para os últimos dias do ano. Cidade do interior, sem o barulho das grandes metrópoles. Comprei pela internet um GPS para me ajudar, não sou muito bom em lembrar caminhos.

Depois de mais de três horas dirigindo, a bateria do equipamento eletrônico acabou. E uma bifurcação serviu de divisor de águas para nosso relacionamento. Estávamos na metade do percurso. Teimei que precisávamos virar à esquerda. Catarina bateu o pé, gritava que se não nos curvássemos à direita, iríamos perder mais tempo para chegar ao destino naqueles dias tão esperados.

Estávamos perdidos. As placas anunciavam rotas vagas, sem sentido, nebulosas.

Ficamos exaltados. Parei o carro, liguei o pisca-alerta. Optei pelo caminho de Catarina e o outro casal presente no carro ficou com os olhos arregalados e as bocas fechadas. Chegamos ao lugar de descanso, mas nunca mais conseguimos nos entender.

Catarina não cansava de criticar meu descuido por esquecer a bateria reserva. Eu não a perdoava por me obrigar a fazer um caminho péssimo. Tudo era motivo para briga e foi questão de tempo para cada um ir para o seu lado.

Antes disso, trocamos acusações a todo instante, em qualquer encontro: no bar, na casa dos amigos, na rua. Se a viagem foi péssima, a ressaca foi pior.

Nos últimos dias, ligo a TV, passo o dedo pela tela do celular, encaro grupos do WhatsApp e atualizações do Facebook: só lembro os gritos de Catarina.

Quando começam os comentários cheios de raiva nas postagens de apoio a este ou àquele candidato, revejo o GPS sem bateria, a falta de calma, a indecisão para qual lado virar o carro antes de chegar à casa das férias.

Nos grupos de WhatsApp, revivo as trocas de farpas entre eu e ela, como duas crianças mimadas, sem maturidade para conviver com as diferenças, sem o equilíbrio necessário para entender que o caminho tomado era o menos relevante: o mais importante era chegar a um lugar que nos trouxesse a paz das férias.
As fake news para desqualificar o adversário e ganhar votos são como os gritos relembrando uma e outra mancada de meses antes dos dias de trevas, que nos levaram para o poço sem fim dos fins de relacionamentos.

Ao notar pessoas perdendo amizades pelas diferenças políticas, recordo as últimas mensagens trocadas e outras não respondidas. Já não era possível convivermos juntos. Cada um tinha certeza que o outro era culpado. Estávamos perdidos e sem bateria, usando a irracionalidade como desculpa pelos caminhos errados.

Se vejo gente agredida por expressar seu posicionamento político, sou capaz de ouvir a voz de Catarina me ofendendo, minha garganta dói e seca como nos dias que a acusei de ser mimada pela mãe.

Ninguém ganhou, nós dois perdemos. Por muito tempo, para a vida inteira.

Tenho a impressão que há algum GPS coletivo e nacional sem bateria, também. Acho até que ele está desatualizado, faltam informações para nós, eleitores. E gritar, brigar ou agredir não é o suficiente para fazê-lo funcionar de um jeito que nos indique qual o melhor caminho a seguir, para qual lado devemos dar seta.

Olhei a foto de perfil de Catarina por alguns minutos, mas desliguei o celular. Nunca mais voltamos a ser os mesmos, nossas perdas foram irreparáveis. Algumas viagens são um caminho sem volta.

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Leandro Marçal acabou de lançar seu novo livro, “No Caminho do Nada”. Você pode adquirí-lo neste site.

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