A relação do funk e a academia – Parte II

Educação 24/07/2018

Em seus 30 anos de existência, o funk dividiu opiniões e gerou uma série de perguntas que surgem na mídia, no dia-a-dia das mesas de bar e textões no Facebook. Algumas delas são puramente preconceituosas e querem criminalizar o movimento. Outras, por outro lado, procuram apenas conhecer melhor a riqueza e complexidade deste universo. Qual a relação entre o preconceito que o samba sofreu no passado e o que o funk sofre ainda hoje? O funk é cultura? O que alguns funks cantam pode ser considerado apologia ao crime? Como se produz um funk? O funk é machista? É feminista? Enfim, são muitas questões que pesquisadoras e pesquisadores de diferentes origens buscaram se aprofundar. Aqui, no Portal KondZilla, apresentaremos em ordem alfabética alguns deles. Obviamente, é impossível mapear todos, mas aqui vai uma lista em ordem alfabética com os principais nomes. Caso saiba de mais algum, deixe nos comentários!

apafunkFoto por: Divulgação // Apafunk

Adriana Facina: antropóloga e historiadora, Adriana Facina é professora de antropologia no Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua imersão no mundo funk veio aliada ao engajamento. Facina participou ativamente na criação da Associação de Profissionais e Amigos do Funk (APAFUNK) e se dedicou à luta contra o preconceito que o gênero sofre. Em 2017 ela recebeu a medalha Pedro Ernesto por indicação da vereadora Verônica Costa por sua luta pelo reconhecimento do funk como cultura. Alguns de seus textos podem ser encontrados aqui e aqui.

Adriana Lopes: Adriana Lopes é linguista e professora no Departamento de Educação da UFRRJ. Seu livro Funk-se quem quiser: no batidão negro da cidade carioca é um clássico para quem estuda o movimento funk. Entre outras coisas, este livro descreve a luta pelo reconhecimento do funk como cultura e traz ótimas reflexões sobre as relações de gênero no funk. Além disso, há também ótimas reflexões sobre como o funk se comunica com outros gêneros musicais da diáspora africana.

Carla Mattos: Cria da Nova Holanda, no Complexo da Maré, Carla Mattos é doutora em Ciências Sociais pela UERJ e pós-doutora pelo Núcleo de Pesquisas Urbanas da UFSCar. Sua dissertação de mestrado se chama No ritmo neurótico: cultura funk e performances proibidas em contexto de violência no Rio de Janeiro e é focada nas galeras funk. Carla entrevistou vários frequentadores destes bailes, refletindo sobre o modo como as guerras de facções repercutiram no mundo funk.

homepageproibidaoHomepage do site proibidão.org – Foto por: Reprodução // proibidão.org

Carlos Palombini: Carlos Palombini é professor da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais. Doutor em música pela Universidade de Durhan, na Inglaterra, seus trabalhos sobre a obra de Pierre Schaeffer o tornaram uma das maiores referências nos estudos de música concreta. De volta ao Brasil encantou-se pelo funk carioca, especialmente o proibidão. Suas pesquisas conectam a organização sonora do funk com as relações sociais nas favelas cariocas. Se você quer saber mais sobre o processo de criação do tamborzão, ou sobre a criatividade harmônica de um funk como “Deu Onda“, do MC G15, você precisa conhecer os textos dele. Palombini também edita o site proibidao.org. Alguns de seus principais trabalhos podem ser encontrados aqui e aqui.

Dennis Novaes: Humildemente, insiro meu trabalho nesta lista. Assim como outros aqui citados, também sou antropólogo e completei meu mestrado pelo Museu Nacional, onde atualmente curso o doutorado. Minha dissertação, intitulada Funk Proibidão: música e poder nas favelas cariocas, fala sobre funks que abordam o universo da criminalidade. Ali você pode encontrar entrevistas de MCs como Cidinho, Frank, Smith, Orelha, Rodson, além de DJs como Byano e compositores como o Praga (autor dos sucessos “Vida Bandida 1 e 2”, “Visão de Cria” e “Os Dez Mandamentos” e que deu entrevista ao Portal KondZilla). É possível encontrar este e outros trabalhos neste link.

Eduardo Baker: mestre em direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e doutorando pela PUC-Rio, Eduardo Baker escreveu uma dissertação que aborda o indiciamento e prisão de MCs cariocas. Este trabalho intitulado Ensaio por uma criminologia perspectivista traz uma série de inquéritos policiais e depoimentos, analisando de forma crítica o modo como os atores penais lidam com o funk.

Fátima Cechetto: é professora da Escola Nacional de Saúde Pública. Seu mestrado, em Ciências Sociais pela UERJ, aborda as galeras funk cariocas na primeira metade da década de 1990. Nesse período, as brigas entre galeras eram muito frequentes nos bailes e faziam parte da diversão. Isso foi muito usado pela polícia e pela mídia para acusar o funk de instigar a violência. A pesquisa de Fátima traz ótimas reflexões sobre o tema abordando questões como juventude e masculinidade. Posteriormente, a pesquisa se tornou um livro: Violência e estilos de masculinidade.

livromundofunk

Hermano Vianna: apresentado aqui anteriormente, a pesquisa de Hermano Vianna é, mais que um relato, uma parte essencial da história do funk. Ele aborda uma boa parte do movimento Black Rio e principalmente como eram os bailes funk antes que surgissem as primeiras letras em português. Seu livro O Mundo Funk Carioca já encontra-se esgotado, mas ele disponibilizou seu trabalho online e você pode acessá-lo por esse link.

Mariana Gomes: mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidade da UFF e doutoranda em Ciências Sociais na PUC-Rio. Ela também participou da criação da APAFUNK. Sua dissertação de mestrado toma como base a vida e a obra de Valesca Popozuda para desenvolver um rico debate sobre as aproximações e diferenças entre a produção das funkeiras e o pensamento feminista. Intitulado My Pussy é o poder: representação feminina através do funk, seu trabalho é considerado referência essencial para quem se aventura neste debate.

Micael Herschmann: professor da Escola de Comunicação da UFRJ, foi um dos primeiros a apontar o preconceito com que a mídia brasileira tratava o funk na década de 1990. Seus trabalhos pioneiros ainda são importantes para entendermos a história do funk nacional, o que ele representava naquele momento. Um deles é o Funk Carioca: entre a condenação e a aclamação da mídia, feito em parceria com João Freire Filho.

Mylene Myzhari: doutora em antropologia pela UFRJ e atua como professora no Departamento de Educação da PUC-Rio. Sua tese de doutorado, sobre o Mr. Catra, ganhou o primeiro lugar do Prêmio Maurício de Abreu promovido Instituto Pereira Passos. Neste trabalho, intitulado A estética funk carioca: criação e conectividade em Mr. Catra, ela acompanhou a história e o cotidiano de um dos maiores MCs do país. O Portal KondZilla também entrevistou esta pesquisadora.

Silvio Essinger: jornalista formado pela PUC-Rio, Silvio Essinger é autor de um livro imprescindível para quem deseja conhecer a história do funk. Batidão: uma história do funk foi lançado em 2005 e entrevista dezenas de artistas percorrendo desde o movimento Black Rio até os artistas que despontavam naquela época. Infelizmente, o livro está esgotado, mas às vezes é possível encontra-lo em alguns sebos por aí.

Você também pode acessar nossa seção ‘Mini-Docs’ e conferir outros diversos trabalhos em audiovisual que estudam o movimento funk.

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Dennis Novaes é bacharel em Ciências Sociais com habilitação em Antropologia pela Universidade de Brasília, mestre em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ, doutorando também pela UFRJ e também autor da dissertação “Funk Proibidão: música e poder nas favelas cariocas”. Em parceria com o Portal KondZilla, Dennis produziu dois textos sobre a relação do funk e a academia, sendo esse o segundo. O primeiro conteúdo você pode acessar nesse link.

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Autor:
Dennis Novaes

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